DEAD CAN DANCE – «Into The Labyrinth» [4AD, 1993]

Falar do álbum favorito nunca é fácil, sobretudo porque a escolha tende sempre a variar consoante o ponto da vida no qual nos encontramos: hoje sentimo-nos mais ligados a uma particular obra musical do que quando éramos mais jovens e no futuro seguramente sentir-nos-emos particularmente ligados a uma outra obra qualquer; em Agosto sentimo-nos mais ligados a uma particular obra musical e em Novembro sentir-nos-emos mais ligados a uma outra, e por aí adiante…

Ainda assim, penso que é seguro estabelecer que existirá sempre algum leque, mais ou menos alargado, de candidatos a este lugar, sendo certo que o acto de reflectir sobre os mesmos se pode revelar um exercício bastante interessante. Nesse sentido, apresento um dos meus eternos candidatos a álbum favorito – na ocasião, um disco do duo britânico-australiano Dead Can Dance.

Confesso, com todo o gosto, que Dead Can Dance é uma influência fulcral para mim enquanto compositor, tanto no contexto do projecto A Constant Storm, como no material que componho para os Moonshade. Contudo, o meu amor por esta banda é relativamente recente, uma vez que só comecei a escutá-los por volta do final de 2013, mesmo a tempo de perder as duas últimas actuações do grupo em Portugal.

Todos os trabalhos da dupla formada por Brendan Perry e Lisa Gerrard são de elevada qualidade e fazem parte de uma discografia que julgo ser verdadeiramente infalível. Ainda assim, aquele que, através dos tempos, me tem parecido consistentemente superior aos restantes (ainda que ligeiramente) é o álbum «Into The Labyrinth», lançado no ano de 1993.

Na minha opinião, a experiência artística não necessita sempre de ser apreciada com base em conceitos definidos. Por outras palavras, podemos gostar de algo e nem saber propriamente traduzir verbalmente a razão pela qual gostamos e isso pode ser um dos factores que nos permite apreciar tanto Linkin Park como Morbid Angel, Rosa Crux como Darkthrone ou David Bowie como Paradise Lost. Isto no que a mim diz respeito, pelo menos.

Contudo, quando nos propomos a organizar um conjunto de descrições e pensamentos com vista a transmitir a outros o porquê de um particular disco ser tão especial para nós, é sensato começar por estabelecer alguns parâmetros daquilo que cada um aprecia e valoriza:

  • O primeiro tem a ver com a variedade e profundidade musical, essencial na minha apreciação e necessário para que a música continue a manter-se interessante, ouvida após ouvida, após ouvida;
  • O segundo tem a ver com as memórias que o disco traz à mente, sendo que a música demonstra, não raras vezes, uma particular tendência de fazer relembrar e reviver momentos passados, tanto positivos como negativos;
  • Por fim, o terceiro, que tem a ver com aquilo a que o teórico francês Roland Barthes determinou como punctum: o espírito indefinível e abstracto da obra artística, que nos toca profundamente.

Ora, «Into The Labyrinth» é um daqueles álbuns que me enche as medidas em toda a linha:

Trata-se de um disco tremendamente diverso, cujo som vai viajando por moods muito distintos, desde os ritmos tribais de “Yulunga (Spirit Dance)” às melodias sinistras de “Toward The Within” e “The Spider’s Stratagem”, passando por momentos de ethereal/goth rock – mais upbeat, como é o caso de “The Ubiquitous Mr. Lovegrove”, ou mais lento e melancólico, como “Tell Me About The Forest (You Once Called Home)” (com as já clássicas referências líricas aos Joy Division, cortesia do senhor Perry).

O disco contém também faixas a cappella na sua totalidade, como “The Wind That Shakes The Barley” ou “Emmeleia”. “Ariadne” e “Saldek” são curtos interlúdios com uma qualidade melódica de fazer inveja a tantos temas de maior duração, “How Fortunate The Man With None” um momento distinto e introspectivo onde Perry entoa estrofes de um poema de Bertold Brecht e “The Carnival Is Over” um tema lindíssimo e extremamente melodramático, o qual não canso de ouvir apesar de me trazer à memória ecos de momentos complicados.

Aproveitando essa mesma deixa, passo para o segundo aspecto acima referido, sendo que este disco está intimamente ligado a uma fase muito delicada da minha vida, onde as emoções estavam à flor da pele e toda a arte me tocava de um modo muito acentuado. No caso deste álbum, além do aspecto sonoro, a temática lírica foi algo com o qual me identifiquei particularmente. Passo a explicar: todo o álbum foi construído à volta de uma lenda da mitologia grega, a de Teseu que entrou no grande labirinto para lutar contra o Minotauro de Creta. Sabe-se que o herói acabou por vencer a criatura e logrou escapar do labirinto.

De facto, na referida fase sentia-me precisamente assim, perdido num labirinto e sabendo que teria de lutar e trabalhar arduamente para conseguir de lá sair. O desfecho da lenda era, porém, algo que me dava a importante esperança de que iria conseguir triunfar e que acabaria por viver melhores dias.

Para concluir, reitero que tenho a convicção de que «Into The Labyrinth» é um álbum que merece ser ouvido por fãs de todos os quadrantes do vastíssimo espectro musical, tal a amplitude sonora e inegável qualidade que os seus 11 temas possuem, bem como todas as distintas emoções que os banham, e que são capazes de cativar qualquer um que escute o disco com atenção.

Quanto a mim, enquanto espero pela oportunidade de ver uma actuação ao vivo dos Dead Can Dance, continuarei a escutar o álbum e a maravilhar-me com o seu conteúdo, recuperando também as memórias dessa minha época, em relação à qual sinto um curioso e simbiótico misto de dor e nostalgia. Digo, sem rodeios, que este é um disco perfeito para ouvir, onde e em que circunstância for, pois podemos perder-nos no labirinto em qualquer lugar.


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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Artista visual e plástico; Músico - fundador e membro único do projecto A Constant Storm e guitarrista dos Moonshade