Vivemos os últimos dias do ano de 2017 e, à medida que nos aproximamos de completar mais uma volta ao sol, damos por nós a reflectir sobre os 12 meses que passaram, analisando todos os acontecimentos, dos mais diversos tipos e sob as mais diversas perspectivas.

No que me toca, 2017 ficará para a história como um ano de altos bem altos e baixos bem baixos – tanto a nível pessoal como profissional, bem como no tocante aos meus projectos musicais, cujos maiores achievements se traduziram no lançamento do EP acústico «Live At Greenhouse», do meu projecto A Constant Storm, e no término do longo trabalho de gravação do novo longa-duração dos Moonshade«Sun Dethroned» – que deverá ver a luz do dia ainda durante a primeira metade de 2018.

Como já é mais que sabido, é tradição recorrente dizer adeus ao ano moribundo comentando o que de melhor se fez no meio musical, pelo que partilho convosco, fãs de música e leitores da Mosher TV, a lista dos meus 10 álbuns favoritos do ano, pertencentes a várias formas dos vastíssimos campos do trifactor Metal-Rock-Goth, os lados mais alternativos e extremos do espectro musical.

Estendo ainda menções honrosas para os seguintes discos, de elevada qualidade como aqueles sobre os quais me debruçarei neste artigo, mas que não lograram chegar à lista final:

  • Zeal And Ardor – «Devil Is Fine» (MVKA);
  • Wolves In The Throne Room – «Thrice Woven» (Artemisia Records);
  • Soror Dolorosa – «Apollo» (Prophecy Productions).

10. Myrkur – «Mareridt» (Relapse Records)

Amalie Bruun é, por estes dias, uma figura particularmente controversa no mundo do metal. A modelo e antiga cantora pop dinamarquesa levantou muitas sobrancelhas e criou grandes ondas no seio da comunidade afecta ao black metal, aquando do anúncio de estreia do seu projecto Myrkur, através do EP epónimo de 2014.

Mesmo antes de qualquer música ter sido escutada, o backlash fez-se sentir, ou não fosse a comunidade black metal uma das mais conservadoras de toda a música alternativa. “Como é que uma modelo pode fazer black metal?”; “Como é que alguém que já fez música pop pode sequer ousar entrar neste género?” – Curiosamente, o facto de Myrkur ter sido apoiado por históricos músicos com raízes no BM, como Kristoffer Rygg (Garm), dos Ulver, ou Fenriz, dos Darkthrone, só aumentou a ira das hostes dos trves defensores da “pureza” consanguínea da música do diabo.

Dois anos após «M», o longa-duração de estreia de Myrkur, 2017 trouxe-nos «Mareridt», uma clara melhoria em toda a linha – a falta de originalidade na composição dos temas e a produção bizarra deram lugar a uma mistura muito interessante entre a agressividade niilista dos clássicos de black metal dos anos 90 com o post-rock moderno, altamente virado para a exploração artística, praticado por artistas como Chelsea Wolfe, que surge mesmo como convidada especial no disco, participando no tema “Funeral”.

Essa é, de resto, uma das faixas em destaque no disco, com as suas batidas arrastadas e riffs monolíticos, complementados pelo dueto de Amalie e Chelsea. Contudo, as verdadeiras estrelas do disco são os temas “Maneblôt” e “Ulvinde”, onde a exímia aplicação da clássica dualidade “beauty and the beast” oferece às canções uma variedade impressionante – tanto no plano instrumental, onde o peso é complementado pelas belas melodias nórdicas que Amalie invoca, como no próprio trabalho vocal da cantora, que vai oscilando entre coros angelicais e gritos demoníacos, sempre com um sentido de elegância apuradíssimo.

9. Marilyn Manson – «Heaven Upside Down» (Loma Vista Recordings/Caroline Records)

A carreira da já lendária figura que é Marilyn Manson experienciou um autêntico renascimento no início de 2015, através do álbum «The Pale Emperor», que se revelou como uma verdadeira injecção de credibilidade na banda do músico norte-americano, após a edição de dois trabalhos francamente abaixo das expectativas.

O toque de blues que contaminou o rock industrial de Manson conciliou uma muito bem-vinda frescura às características icónicas do seu som e veio a ser o principal catalisador para a demarcação do músico das imitações de segunda linha de si próprio que vinha fazendo, e para a reinvenção de si mesmo como um artista mais maduro, diferente do shock artist que causou massivas ondas de indignação durante a segunda metade dos anos 90.

Este «Heaven Upside Down» era, então, um álbum particularmente antecipado, pela curiosidade de verificar se a qualidade de «The Pale Emperor» teria um seguimento à altura. E parece-me seguro dizer que sim – nesta nova proposta, Manson logra fazer aquilo que não conseguiu durante vários anos, ao trazer de volta elementos do seu passado, mas de modo bem elaborado e subtil. Um dos maiores exemplos está no seu tradicional uso de profanidade, que, desta vez, não soa forçado ou foleiro, mas sim alinhado com o seu propósito: o de acentuar, não de se transformar no foco principal.

O andamento blues do álbum de 2015 mantém-se em vários dos temas, como “Tattooed In Reverse”, “Kill4Me” e a faixa-título, ao passo que o rock industrial, característico de discos clássicos como «Antichrist Superstar» é trazido para os holofotes em temas como “We Know Where You Fucking Live” ou “Saturnalia”, música dedicada ao falecido pai do artista, e que é um autêntico manual de como criar transições de modo particularmente suave mas muito impactante. Destaque ainda para “Blood Honey”, uma balada lindíssima, que não fica a dever nada a históricos temas como “Coma White” ou “Lamb Of God”.

8. Queens Of The Stone Age – «Villains» (Matador Records)

Naquele que acaba por ser um caso algo semelhante ao de Marilyn Manson, é opinião generalizada, entre fãs e crítica, que os Queens Of The Stone Age, alcançaram o zénite da sua carreira discográfica com o álbum «…Like Clockwork», do ano de 2013. Esse disco, que no meu entender ficou para a história como um dos melhores discos de rock de todos os tempos, viu o conhecido colectivo norte-americano apostar numa ideia musical menos directa e mais orientada para o plano conceptual, uma mudança considerável em relação às características da maioria dos lançamentos da banda até à altura.

Temas como “The Vampyre Of Time And Memory”, “Kalopsia” ou “I Appear Missing” revelaram um lado complexo e extremamente emocional dos QOTSA, que estava latente em algumas das músicas de álbuns anteriores, mas que ainda não havia sido explorado em profundidade, e o resultado foi um sucesso estrondoso. Naturalmente, uma obra-prima cria sempre enormes expectativas em relação à sua sucessora e é, muitas vezes, uma fase delicada na vida de uma banda, onde a vontade de provar que o sucesso anterior não foi apenas um acaso existe como factor de motivação acrescida.

Sendo directo – e talvez injustamente redutor – «Villains» não é melhor do que «…Like Clockwork». Dificilmente seria, pela extrema qualidade do seu antecessor, mas isso não significa que seja um mau disco, antes pelo contrário: nele, a banda de Josh Homme continua a modificar o seu som, fazendo uma combinação dos interessantíssimos devaneios artísticos explorados em «…Like Clockwork» e a natureza directa e acessível de clássicos anteriores, como «Songs For The Deaf» ou «Lullabies To Paralyze».

“Feet Don’t Fail Me” e “The Way You Used To Do” são dois temas fortíssimos, onde a banda traz à mesa um groove tão infeccioso que não permite ao ouvinte escutá-los sem mexer a cabeça e o corpo ao seu ritmo, antes de faixas como “Fortress” ou “Villains Of Circumstance” voltarem a trazer à colação todo o espectro de variedade e profundidade emocional da qual sabemos que os QOTSA são capazes.

7. Motionless In White – «Graveyard Shift» (Roadrunner Records)

O metalcore costuma ser um género traiçoeiro por natureza – a linha entre o interessante e o kitsch é muito ténue e não é nada difícil cair na personagem do adolescente atormentado e demasiado edgy para o seu próprio bem, ao invés do artista sincero que faz música para descarregar a sua raiva sobre angústias pessoais.

Um dos lados positivos desta contingência é que as boas bandas ainda sobressaem mais e esse tem sido o caso dos Motionless In White, colectivo de Scranton, PA que tem sabido criar álbuns francamente interessantes, com a sua mistura muito própria de metalcore, industrial, gothic e até reminiscências de nu-metal. O segundo disco da banda, «Infamous», é particularmente identificativo desta mescla e era, até agora, o grande destaque da discografia dos MIW.

Neste «Graveyard Shift» a banda continua a exploração pelos campos industriais e góticos que começou no já referido «Infamous», bem como no seguinte, «Reincarnate». Contudo, este novo trabalho é uma clara melhoria em relação ao seu antecessor: não sendo um disco tremendamente original em relação aos mais recentes do catálogo da banda, é um refinar e aperfeiçoar de colecção de características musicais que ainda tinha pernas para andar antes de se tornar fastidiosa, na ocasião o uso pronunciado de leads de sintetizador, que complementam os refrões bem orelhudos e os típicos breakdowns à la core – um ponto sempre sensível, mas que os Motionless In White conseguem cumprir com classe e inteligência.

Além de faixas fortíssimas como “Rats”, “Not My Type” e “Voices”, o grande destaque do álbum vai para “Eternally Yours”, um tema tão bem construído e catchy que facilmente se tornará antémico e bem representativo da banda a curto prazo, sendo que o grande calcanhar de Aquiles de «Graveyard Shift», que é o que impede o disco de alcançar um patamar qualitativo ainda mais elevado, está relacionado com o aspecto lírico, onde os poemas são construídos de uma forma demasiado básica e a grande quantidade de profanidade empregue pelo vocalista Chris Motionless não raras vezes ultrapassa os limites do bom gosto, tornando-se algo datada.

6. Amenra – «Mass VI» (Neurot Recordings)

Passo o cliché de incluir este disco no sexto lugar do meu top, mas a sexta missa dos belgas Amenra é bem merecedora de um lugar de destaque no quadro de honra dos discos editados em 2017. Algo que respeita o histórico do supremo colectivo de devotos à igreja de Ra, ou não fosse a sua discografia perfeitamente merecedora de admiração, pela sua consistência qualitativa e relevância no meio da música extrema – sludge, post-metal – seja qual for o rótulo que se lhes prefira dar.

Praticantes de uma vertente musical marcadamente difícil de digerir, pelo uso de estruturas de composição muito soltas e repetitivas, carregadas de paredes de distorção, tanto nos instrumentos de cordas como na voz de Colin H. Van Eeckhout, fazendo com que as letras se tornem praticamente imperceptíveis, os Amenra vêem cada disco como um ritual, mais do que uma simples colecção de temas. Isto faz com que a melhor maneira de experienciar cada uma das suas já tradicionais “missas” seja mesmo através da sua audição na totalidade e por ordem.

Neste «Mass VI», a banda mantém o grosso das suas características mais identificativas, particularmente no campo do peso abrasivo e da dissonância sónica, mas concilia-as, ao longo do álbum, com o uso de momentos mais calmos e introspectivos, onde o som da guitarra limpa e a voz, aqui clara e atormentada – uma tendência cuja presença tem estado em crescendo nos trabalhos da banda, particularmente a partir do quarto capítulo da sua bíblia discográfica.

Como referido acima, a melhor maneira de experienciar esta peça é mesmo através da audição de todas as faixas seguidas, mas a haver um destaque, “Children Of The Eye” é a escolha óbvia: um tema que utiliza o mesmo riff durante os seus 9 minutos e meio, conseguindo mantê-lo sempre interessante durante todo esse tempo, através de subtis variações de instrumentos adicionais e crescendos de intensidade que deixam o ouvinte colado ao loop em adoração hipnótica. A épica e comovente “A Solitary Reign” também merece uma palavra de apreço.

5. Trivium – «The Sin And The Sentence» (Roadrunner Records)

Os Trivium são uma banda polarizadora, não há volta a dar. Tal como os Metallica, banda à qual têm sido incessantemente comparados ao longo dos anos (algo que lhes fez mais mal do que bem) cada lançamento causa reacções bem fortes, tanto positivas como negativas, e a tendência de variar muito a cada álbum – algo que eu aprecio particularmente – faz com que cada marco no output discográfico dos norte-americanos desperte opiniões bem distintas entre si, com base na qualidade de cada trabalho, mas também em gostos pessoais.

Entre o lado dos fãs que idolatram a complexidade do épico «Shogun» e que reviraram os olhos quando o metalcore voltou em força ao seu som nos álbuns «In Waves» e «Vengeance Falls», e o dos que vibraram intensamente com a potencia jovial de «Ascendancy» e se desinteressaram pelos throwbacks aos velhos dias do heavy metal clássico que a banda explorou em «The Crusade» e mais tarde «Silence In The Snow», a ainda relativamente jovem banda foi forçada a ir desenvolvendo cada vez mais o seu poder de encaixe, adaptando-se a ligar pouco às críticas externas e a dedicar esforços a fazer aquilo que eles mesmos desejam fazer, a cada passo do seu percurso.

Dito isto, é curioso verificar que a sua nova proposta reúne várias características dos álbuns acima referidos, tornando-se um interessante apanhado das várias facetas do seu passado: as melodias épicas e estruturas progressivas que formaram «Shogun» voltam em força, mas são aliadas às linhas vocais e acessíves do metalcore praticado em «Ascendancy», e também às referências sonoras a alguns dos mais lendários membros do panteão do metal clássico, como Dio, Iron Maiden ou Judas Priest.

A maioria da qualidade do disco encontra-se entre os primeiros 8 temas, dos quais se destacam clássicos instantâneos como a faixa-título, “The Heart From Your Hate”, “Betrayer” e a gloriosa “Endless Night”, que encaixaria perfeitamente num cenário de arena rock, com uma plateia gigantesca a entoar o refrão do topo dos pulmões. A perda de gás evidente nos últimos 3 temas prejudica a qualidade do produto final, mas as restantes são mais que suficientes para tornar este álbum num verdadeiro sucesso.

4. Satyricon – «Deep Calleth Upon Deep» (Napalm Records)

Os Satyricon são um nome incontornável da cena black metal norueguesa, pelos clássicos do género que lançaram durante a grande proliferação dos 90’s, como «Dark Medieval Times» ou «Nemesis Divina», mas também pelos trabalhos que editaram a partir da entrada do novo milénio, onde fizeram questão de explorar sonoridades diferentes, com o objectivo de transcender cada vez mais os limites castradores do BM. Deste percurso de inovação destacam-se discos como «Now, Diabolical» e «The Age Of Nero», além de «Satyricon», álbum que até agora era o mais recente.

Com este trabalho epónimo, lançado no ano de 2013, e em nova metamorfose, os nórdicos evoluíram o escilo black ‘n’ roll tão pesado quanto groovy ao qual se vinham dedicando desde o lançamento de «Volcano» (2002) e optaram por explorar uma ideia musical mais hipnótica e atmosférica, conciliando alguns aspectos das propostas dos anos 90 com a onda rock onde mergulharam durante a primeira década do séc. XXI. Este disco, controverso como tudo o que os Satyricon fazem, foi, na minha opinião, o grande disco do ano, ficando para a história como um dos – talvez mesmo “o” – mais desafiantes e carismáticos álbuns do catálogo da banda.

O ano de 2017 trouxe-nos «Deep Calleth Upon Deep», nono álbum de originais da banda de Satyr e Frost, cuja capa é agraciada por um sketch do lendário pintor Edvard Munch, e que aparenta ser o lógico passo seguinte à estrondosa declaração de força do álbum auto-intitulado: a onda hipnótica continua bem presente, quer a nível da produção, que faz um uso bastante interessante da gravação em fita e o “calor” característico que a mesma oferece aos temas, como das próprias composições, onde os leads minimalistas e riffs etéreos se juntam aos padrões de bateria altamente diversificados, que vão desde o espaçado e simples ao frenético e complexo com uma naturalidade desarmante.

No que toca a temas, os grandes destaques são “To Your Brethren In The Dark”, uma faixa extremamente lenta, embebida de um espírito quase shoegaze, que traz à memória certos momentos de uns Alcest ou até mesmo Deafheaven; “The Ghost Of Rome”, um tema com melodias orelhudas de tal maneira que até poderia ser confundido com alguma estranha espécie de pop pesado, mas sempre com o brilhante sentido de atmosfera; e “Dark Wings And Withering Gloom”, uma música com tom épico e grandioso e dona de uma estrutura composicional particularmente complexa, pautada pelas brilhantes letras de Satyr, que pintam a imagem de uma desolada paisagem gélida na mente do ouvinte.

3. Converge – «The Dusk In Us» (Epitaph Records/Deathwish Inc.)

Pioneiros e figuras de proa da exploração artística do hardcore – uns chamam-lhes metalcore, outros mathcore, outros post-hardcore, enfim, a única coisa em que todos conseguem concordar é que os Converge são uma autêntica instituição no que toca às bandas que surgiram do underground do punk americano durante os anos 90 e que nunca cessaram a sua busca pela progressão e negação da estagnação.

Os clássicos álbuns da banda são numerosos e bem conhecidos: «Jane Doe», talvez o mais sonante, mas também «Axe To Fall» e o excelente «All We Love We Leave Behind», disco que deixou os fãs do colectivo de Massachusetts com água na boca por nova dose da sua safra particular de música trovejante, caótica e exacerbadamente emocional durante mais de 5 anos, que foram preenchidos por vários outros projectos, maioritariamente relacionados com actuações ao vivo – sessões BBC, espectáculos especiais no festival Roadburn, em colaboração com nomes como Neurosis e Chelsea Wolfe e a celebração do 15º aniversário do acima referido «Jane Doe».

Pela altura em que a banda anunciou o lançamento de «The Dusk In Us», a espera por um novo álbum de originais já ia longa, mas é caso para dizer que a mesma compensou, e de que maneira: neste novo disco, os Converge voltaram a oferecer particular destaque à melodia, algo que vinham a fazer desde «No Heroes», cada vez com mais proeminência ao longo dos lançamentos seguintes. Isto não significa que o hardcore frenético que desde cedo se tornou uma das maiores marcas identificativas da banda tenha desaparecido, antes pelo contrário. De facto, as grande muralhas de distorção na guitarra de Kurt Ballou e os acessos de fúria angustiada de Jacob Bannon continuam bem presentes, ainda que pontuados por intervalos de melancolia, como nas faixas “The Dusk In Us” e “Thousands Of Miles Between Us”.

Estes dois temas, aqueles que mais se assemelham a baladas, são dois grandes destaques deste álbum – o primeiro, pelo tom deprimente da música, perfeito para se escutar depois de se ter perdido alguém importante; e o segundo, que faz uso de um ritmo que traz à memória o country norte-americano de uma forma que é tão inesperada como cativante. Outros destaques incluem a raivosa “I Can Tell You About Pain”, a extremamente melódica “A Single Tear” e “Reptillian”, canção que fecha o disco e que vai beber muito aos lendários Black Sabbath.

Nota ainda para o artwork da capa, da autoria do vocalista Jacob Bannon: uma imagem agressiva e altamente texturada, algo totalmente alinhado com o seu estilo e visão artística, que sempre forma extremamente representativos dos Converge e que vivem em simbiose com a música. Nela é notória uma referência aos Dead Can Dance, mais concretamente à capa do álbum «Within The Realm Of A Dying Sun», que me faz sorrir de orelha a orelha sempre que a visualizo.

2. Ulver – «The Assassination Of Julius Caesar» [+ «Sic Transit Gloria Mundi»] (House Of Mythology)

Já muita tinta correu acerca de como definir exactamente ao que é que soam, ou exactamente o que é que são os Ulver, e todos os que buscam saber acabam por chegar sempre à mesma resposta: multiformes e multifacetados, o colectivo mutante de visionários que tem em Kristoffer Rygg (Garm) o seu comandante, rejeita qualquer tipo de fidelidade a uma só colecção de características musicais, sendo capaz de viajar de um disco de black metal abrasivo e misantrópico a uma sinfonia clássica num estalar de dedos.

Uma das características mais impressionantes deste grupo é, contudo, a maneira como conseguem embeber cada uma das suas experiências (e já lá vão quase 25 anos delas) de uma identidade altamente reconhecível. Ao escutar o folk acústico de «Kveldssanger», o trip hop/avant-garde com pitadas de jazz de «Perdition City» ou o art rock de álbuns como o genial «Blood Inside» ou «Wars Of The Roses», o ADN dos Ulver é instantaneamente notório, algo que em teoria parece ser de loucos, mas que na prática simplesmente resulta.

Neste quadro, já aceitamos por defeito que o único estado mental possível para escutar um novo disco dos nórdicos é esperar o inesperado, bem como entreter a expectativa de verificar qual o tipo de direcção musical que os lobos tiraram da tômbola de géneros desta vez. Neste «The Assassination Of Julius Caesar», bem como na sua companion piece, o EP «Sic Transit Gloria Mundi», o escolhido foi… synthpop.

As influências de populares artistas desta onda que surgiu nos anos 80, como Eurythmics e, muito particularmente, Depeche Mode, estão aqui bastante pronunciadas, mas seria redutor determinar o disco como uma simples cópia deste género da parte dos Ulver, que, de resto, já nos habituaram a um balanço exímio entre o uso de referências do passado e a criação de algo ambicioso e, novamente, carregado de identidade lupina.

Nesta viagem por cenários Cesarianos, as orquestrações minimalistas e batidas pulsantes, tanto digitais como acústicas, providenciam um belo campo sonoro para o plano conceptual do disco: cada tema fala sobre tragédia, desde a morte da princesa Diana ao grande incêndio de Roma, aos crimes da família Manson, entre muitos outros.

A música que toca na história da princesa Diana e a entrelaça com referências ao Imperador Nero, “Nemoralia”, é o grande hit do álbum, bem como a faixa mais reminiscente da herança dos Depeche Mode, mas há muita mais qualidade a borbulhar ao longo dos temas: “So Falls The World”, com o seu dance-break que opera uma impressionante transição de balada introspectiva para malha de rave, “Transverbation”, onde os Ulver abraçam o EDM em modo total, “1969”, que prova que uma ‘simples’ música pop pode ser tão bela e intensa como qualquer peça mais erudita, e a experimental “Coming Home”, que fecha «The Assassination Of Julius Caesar» da maneira mais bizarra possível, isto se por esta altura ainda não nos tivermos habituado à loucura criativa desta selvagem alcateia.

1. Moonspell – «1755» (Napalm Records)

Incompreensivelmente mal-amados em alguns círculos de discussão do meio metal em Portugal, os Moonspell, grandes portadores do estandarte da música pesada lusitana, criaram muito burburinho aquando do anúncio do disco «1755», publicitado como uma viagem pelos acontecimentos históricos do grande terramoto de Lisboa, com letras inteiramente em português.

Confesso que fui um dos que se assustou com o conceito, particularmente porque sempre tinha tido a ideia de que o o uso da língua portuguesa no metal tem muito mais campo para correr tremendamente mal do que tremendamente bem. Culpa dos maus exemplos que tinha tido anteriormente, seguramente. Certo é que estava profundamente errado, tendo reparado nisso logo aos primeiros acordes da nova versão de “Em Nome Do Medo”, que abre as hostilidades e lança o mote para a exploração histórica, feita por Fernando Ribeiro e companhia.

A instrumentação é tão épica quanto elegante, um equilíbrio delicado, que é um dos maiores pontos de interesse da música de «1755», algo para agradecer ao mastermind por trás das composições dos Moonspell, Pedro Paixão. A faixa-título e como outras fortíssimas canções que descrevem os momentos mais aterrorizantes do terramoto, como “Desastre”, “Abanão”, “1 De Novembro” e “Evento são exemplos perfeitos da atitude possante que é linha condutora do disco, enquanto o mid-pace oriental de “Ruínas” e a brilhante participação do fadista Paulo Bragança em “In Tremor Dei” oferecem uma variedade tremenda à tracklist.

Quando parece que o disco já não poderá ter momentos tão altos como os anteriormente escutados, surge “Todos Os Santos”, um tema que seguramente se tornará num dos imprescindíveis nos concertos vindouros e que urge o povo português a sentir-se orgulhoso da sua história e da força que sempre demonstrou ao longo dos séculos. Após este ponto de exclamação patriótico, o disco fecha com “Lanterna Dos Afogados”, uma versão do grupo brasileiro Os Paralamas Do Sucesso, que é um dos destaques mais inesperados do disco: a maneira como a banda transforma uma inofensiva música de novela num tema doom carregado de emoção só está ao alcance de músicos do mais alto gabarito.

Um destaque particular para as letras de Fernando Ribeiro que, através do uso de vocabulário pouco rebuscado, directo mas extremamente impactante, logrou criar um conjunto de poemas que faz jus à magnitude da tarefa, mas que também pode servir como um ponto de interesse para ouvintes estrangeiros, um pouco à imagem daquilo que os Rammstein fazem com o seu nativo alemão.

Para rematar, e regressando ao ponto de análise introduzido quando referi o tema “Todos Os Santos”, parece-me pertinente reiterar a importante lição que os Moonspell nos transmitem através deste álbum. Utilizando a viagem à tragédia de 1755, a banda demonstra que nós – cidadãos e, particularmente, artistas portugueses dos dias de hoje – temos resiliência e coragem para superar qualquer desafio ou dificuldade que nos surja: queremos que a nossa arte seja internacional, que ultrapasse barreiras e que faça de nós verdadeiros cidadãos do mundo, atingindo expressão junto dos povos das outras nações – nossos irmãos neste planeta – aos quais demonstramos todo o respeito que nos merecem, mas nunca descorando o apreço e orgulho que devemos sentir na nossa própria cultura e no nosso próprio país, pelo qual lutamos todos os dias.

Tal como os portugueses de 1755, que se ergueram face ao descalabro, nós não fugimos da realidade, não temos medo e não caímos no erro de engolir a estranha narrativa de que neste território é impossível fazer algo de relevo, que quem a ele esteja afecto está condenado a uma vida de objectivos pouco ambiciosos, regrada pelo mínimo denominador comum. A verdade é que sempre fomos resistentes, fomos e somos heróis do mar, fomos e somos Portugueses.

 


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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Artista visual e plástico; Músico - fundador e membro único do projecto A Constant Storm e guitarrista dos Moonshade