Chegamos ao fim de 2016 e está na hora de fazer a retrospectiva desta volta ao Sol. Convidámos o Daniel Laureano dos Moonshade para nos deixar o seu Top 10:

10. Ulver – “ATGCLVLSSCAP” (House Of Mythology)

Os noruegueses Ulver são um colectivo que nunca se confinou a um estilo musical em particular, criando música de todo o tipo, desde o black metal cru e atmosférico do clássico “Bergatt” ao dark ambient etéreo e experimental de um álbum como “Shadows Of The Sun”, passando por avant-garde, trip hop, música electrónica e rock psicadélico, entre tantos outros.

Este “ATGCLVLSSCAP” (sigla composta pelas iniciais dos 12 signos do zodíaco) pode ser interpretado como álbum de estúdio ou como um álbum live, uma vez que as faixas que o compõem foram, de facto, gravadas ao vivo, ao longo de uma série de concertos que a banda designou como “free improvisation shows”. Neles, a banda optou maioritariamente por revisitar alguns temas do seu passado e dar-lhes uma roupagem diferente, acrescentando também alguns elementos em estúdio, a posteriori.

Ao longo do disco os Ulver conseguem criar uma atmosfera verdadeiramente hipnótica, onde é por demais interessante verificar que alguns dos novos arranjos oferecem uma dimensão totalmente diferente aos temas. Neste sentido, os principais destaques vão para as faixas “Moody Stix” (antiga “Doom Sticks”, do EP “A Quick Fix Of Melancholy”) e, sobretudo, para as pulsões orgânicas e quentes da nova “Nowhere”, que surgem em contraste absoluto com a versão introvertida e mecânica do tema que fecha o álbum “Perdition City”.

9. Gojira – “Magma” (Roadrunner Records)

‘Inovação’ sempre foi palavra de ordem para os Gojira, banda que nos habituou a lançamentos de qualidade inegável, com a sua mescla muito própria de peso e groove, assente em riffs extremamente memoráveis e melodias grandiosas. Nos álbuns “From Mars To Sirius”, “The Way Of All Flesh” e “L’Enfant Sauvage”, o grupo foi aperfeiçoando o seu som, progredindo as mesmas ideias musicais mas conseguindo sempre manter a frescura e interesse nas suas composições.

Neste “Magma”, sexto álbum de estúdio do colectivo, nota-se uma mudança de direcção para uma ideia sonora mais minimalista e experimental, onde a banda opta por dar mais destaque ao seu groove característico, deixando o peso para segundo plano e adicionando elementos que remetem para o rock alternativo, como o uso mais proeminente de voz limpa e a menor agressividade na distorção das guitarras.

Esta mudança algo inesperada resulta lindamente, sobretudo nas faixas “Silvera” e “Stranded”, temas construídos maioritariamente à volta de um riff e que são tão acessíveis e imediatos como repletos de subtilezas que tendem a passar despercebidas durante as primeiras audições. As melodias dissonantes da faixa título e a atmosfera introspectiva de “Low Lands” não ficam atrás e contribuem para o sucesso da estreia desta nova faceta dos Gojira.

8. Alcest – “Kodama” (Prophecy Productions)

Quando, em 2014, os Alcest puseram de parte o lado metálico do seu som e se focaram quase por inteiro no shoegaze com o álbum “Shelter”, muitos fãs temeram o abandono total da sua identidade e que acabasse por significar a transformação do colectivo francês em apenas “mais uma” banda, entre tantas outras que exploram este tipo de som em exclusivo.

“Kodama”, o quinto álbum de estúdio do grupo, representa o regresso do black metal ao som dos Alcest mas mostra também a importância da experimentação feita no trabalho anterior, uma vez que as atmosferas límpidas e extasiadas do “Shelter” surgem em perfeito convívio com as ambiências sombrias e pesadas, remetentes a álbuns como “Souvenirs D’un Autre Monde” ou “Les Voyages De L’âme”, o que oferece ao disco uma personalidade muito própria mas que ao mesmo tempo é reminiscente de todas as fases do passado da banda.

Destaco os temas “Oiseaux De Proie”, onde os gritos agudos de Neige complementam de forma simbiótica os riffs atmosféricos e as batidas tribais do baterista Winterhalter, e “Kodama”, provavelmente já a minha música favorita dos Alcest, num álbum que também concorre para ser o meu favorito da banda.

7. Opeth – “Sorceress” (Moderbolaget/Nuclear Blast)

A decisão tomada pelos Opeth de colocar o aspecto mais sombrio do seu característico som com vista a abraçar por completo o rock progressivo, que vai buscar influência das bandas clássicas dos anos 70 como Camel ou Jethro Tull, entre outros, provocou reacções muito polarizadas nos seus fãs aquando do primeiro álbum desta nova era dos suecos (“Heritage”, 2011).

O ano de 2016 trouxe “Sorceress”, o décimo-segundo álbum de estúdio, terceiro desde o início desta metamorfose, sendo que o resultado é um álbum tremendamente diverso e que continua a exploração desta banda altamente criativa, mas que provavelmente não convencerá os fãs que se têm sentido defraudados a dar-lhes uma nova hipótese.

Penso, porém, que com isso estarão a perder a oportunidade de ouvir um excelente disco que conta com excelentes temas como a faixa-título, “The Wilde Flowers”, “Era” ou a brilhante “Will O The Wisp”, temas que me fazem pensar duas coisas: em primeiro lugar, parece-me que o som dos Opeth não mudou tanto quanto se romantiza, visto que o ADN da banda nunca abandonou as composições; em segundo lugar, sou da opinião que os novos caminhos explorados não fazem mais senão enriquecer o catálogo deste colectivo icónico, sendo que “Sorceress” ficará para a história como mais um triunfo.

6. Aeon Sable – “Hypaerion” (Solar Lodge)

Os Aeon Sable são um duo alemão de rock gótico pertencente à nova onda de grupos que tem recuperado e expandindo os horizontes deste género que teve o seu apogeu nos anos 80. Curiosamente, a banda tem uma relação muito peculiar com o nosso país, por parte do vocalista Nino Sable, que passou parte da sua infância em Portugal, tendo inclusivamente incluído a língua portuguesa em três temas de trabalhos anteriores.

“Hypaerion” é o quarto álbum de longa-duração deste projecto e é o mais arrojado até à data no que à inclusão de sonoridades mais pesadas diz respeito, estas que surgem como contraponto às ambiências melódicas e pós-apocalípticas, sempre com a linha de baixo muito marcada na condução dos temas. Este peso cada vez mais pronunciado assume particular destaque na voz gutural que Nino inclui no refrão da faixa “Garden Of Light”, assim como na orientação doom dos temas “White Snow” e “Procession…”, que fecham o álbum.

As forças do disco não se cingem apenas ao peso, sendo que a impressionante variedade dos temas é evidenciada pelo groove infeccioso e ‘dançável’ de faixas como “Laylah” e a sublime “Elysion”, que a curto prazo entrará certamente na lista de ‘greatest hits’ dos Aeon Sable.

5. Rotting Christ – “Rituals” (Season Of Mist)

Nome de culto do black metal underground nos finais dos anos 80 e inícios dos anos 90 do século passado, os gregos Rotting Christ lograram manter-se relevantes ao longo dos tempos, tendo para isso contribuído as diferentes sonoridades com as quais a banda foi experimentando, do metal gótico de álbuns como “Triarchy Of The Dead Lovers” ou “A Dead Poem” aos ritmos agressivos, exóticos e grandiosos de “AEALO” ou “Kata Ton Daimona Eaytoy”.

“Rituals”, o mais recente disco, é uma continuação lógica do caminho que a banda tem vindo a explorar nos últimos discos e nele temos uns Rotting Christ no cume da grandiosidade bélica e ritualística, onde cada batida parece vinda dos cabos das lanças de guerreiros e as melodias épicas e coros selvagens invocam gritos de batalha de antigas legiões dos mais diversos impérios.

As diferentes línguas que surgem ao longo do álbum oferecem aos temas enorme riqueza. Exemplos disto são “Ze Nigmar”, cantada em hebraico, “Elthe Kyrie” e “Tou Thanatou” em grego e “Les Litanies de Satan” (com participação de Vorph, dos Samael) em francês, sendo que o álbum conta ainda com a participação de Nick Holmes, dos Paradise Lost, no tema “For A Voice Like Thunder”, baseado num poema de William Blake. O álbum fecha de modo magistral com a fantástica rendição de “The Four Horsemen”, uma cover do lendário grupo grego de prog rock Aphrodite’s Child.

4. Dark Tranquillity – “Atoma” (Century Media Records)

Em 2013 os titãs do metal sueco lançaram o seu décimo disco “Construct”, que surgiu como um autêntico murro na mesa após o desinspirado “We Are The Void”. O trabalho foi concebido numa fase particularmente turbulenta da sua existência e a banda teve o mérito de conseguir criar um álbum tão focado como carregado de emoção e dono de uma frescura impressionante, recuperando em escala considerável os elementos electrónicos com os quais brincaram no início do milénio.

Três anos depois e após a surpreendente saída do membro fundador Martin Henriksson, os Dark Tranquillity regressam com “Atoma”, onde continuam pelos caminhos explorados no “Construct” e os aprimoram e aperfeiçoam. A forte afirmação dos elementos electrónicos acima referidos oferece uma nova e entusiasmante dimensão ao estilo pouco-ortodoxo do colectivo, bem como a voz de Mikael Stanne, que continua a ser um dos pontos de maior interesse, tanto na sua forma gutural como limpa.

“Forward Momentum”, “Neutrality”, “The Pitiless” e “Clearing Skies” são as músicas que melhor captam a essência dos Dark Tranquillity de hoje e terão seguramente lugar reservado nas setlists futuras da banda, ao passo que a incrivelmente ‘catchy’ e atmosférica “Atoma” já reina como a minha música favorita dos nórdicos até à data.

3. David Bowie – “Blackstar” (Sony Music Entertainment)

A notícia da morte de David Bowie foi recebida com choque generalizado, pela sua importância como músico e ícone da cultura pop, mas também pelo facto da sua doença terminal ter sido completamente ocultada do público. Durante largos dias, por todo o globo, surgiram tributos ao homem que deu a voz a clássicos como “Ziggy Stardust”, “Heroes” e “Life On Mars?”, entre tantos outros.

Dois dias antes, no dia que assinalou o 69º aniversário de Bowie (8 de Janeiro), o álbum “Blackstar” foi lançado, este que acabou por se confirmar como a sua obra de despedida e último diamante numa discografia vasta e variada.

Eclectismo e experimentação definem este trabalho, cujo som vai desde o jazz ao cabaret nova-iorquino, passando pelo rock experimental e até pelo darkwave. Estes são também adjectivos que foram estando presentes no decurso da carreira do famoso ‘camaleão’, na qual Bowie sempre rejeitou jogar pelas regras da música popular e comercial, regras que, quase paradoxalmente, pareceram adaptar-se a ele ao longo dos tempos.

Em “Blackstar” as letras assumem um papel fulcral, servindo de espelho para a alma de Bowie, e através das quais este demonstra claramente estar ciente de que o seu fim se aproxima, mas que ao mesmo tempo sente necessidade de enfrentar a sua morte iminente e transformá-la em arte.

A críptica “Blackstar”, a sinistra “Girl Loves Me” e a épica “I Can’t Give Everything Away” estão entre as faixas mais marcantes deste disco, que atinge no tema “Lazarus” o seu zénite. “Lazarus” é a jóia da coroa do espólio de David Bowie e ficará para a eternidade como testemunho ao artista que soube, com mestria, transformar a sua própria morte na sua obra-prima.

2. Ihsahn – “Arktis” (Candlelight Records)

Ihsahn é um artista como poucos. Desde o black metal técnico e intricado, ainda que extremamente atmosférico, dos dias como líder dos Emperor à mescla de rock e metal progressivo com inclinações avant-garde de “The Adversary” (o seu primeiro álbum como artista ‘solo’) à experimentação ideológica e estrutural efectuada em “Das Seelenbrechen”, o norueguês nunca deixou de explorar o seu eclectismo, mantendo em cada fase um nível qualitativo invejável.

“Arktis”, o sexto álbum de originais, é o seu trabalho mais ambicioso até à data, no qual é possível identificar vários elementos dos discos anteriores, espelhando a progressão que o artista tem demonstrado no seu percurso. Isto não quer dizer, contudo, que o álbum seja desprovido de novas ideias, antes pelo contrário.

“Dissassembled” e “Mass Darkness” abrem o álbum de forma frenética, através do seu black metal avant-garde com toques industriais, antes das sonoridades mais acessíveis e synthpop de “My Heart Is Of The North”. De seguida surge “South Winds”, a faixa mais arrojada de todo o álbum, que intercala inesperados ritmos techno com melodias grandiosas e riffs atmosféricos. Nos temas seguintes, Ihsahn vai oscilando entre melodias suaves e introspectivas e ambiências tão psicóticas como dissonantes, assim como as já características secções de free jazz (com solos de saxofone à mistura) que têm surgido nos trabalhos mais recentes. Para fechar, a épica “Celestial Violence”, com a participação de Einar Solberg, vocalista dos Leprous, cujas contribuições também estão presentes na faixa inicial.

Nota ainda para as restantes colaborações: Matt Heafy, dos Trivium, canta no tema “Mass Darkness” e os solos de saxofone em “Crooked Red Line” são da autoria de Jorgen Munkeby, dos Shining.

Em suma, “Arktis” é um verdadeiro exercício de exploração e experimentação que ainda assim nunca abandona o planeamento metódico e construção minuciosa de cada elemento, algo que reflecte Ihsahn no seu melhor: um autêntico visionário que continua a alargar cada vez mais o espectro daquilo que é possível fazer na música.

1. Metallica – “Hardwired… To Self-Destruct” (Blackened Recordings/Vertigo)

Arrojado. Criativo. Monumental. Controverso. Nada que esteja relacionado com a maior banda de metal do mundo logra fugir a estes adjectivos, sobretudo pela incapacidade de consenso que existe em relação aos Metallica e os seus muitos desvios da fórmula que inicialmente os colocou no mapa, no início da longínqua década de 80.

Actualmente, e dado o tamanho mastodôntico que o nome Metallica possui, qualquer sinal de novo material da banda representa mais do que um simples lançamento musical, mas antes um acontecimento especial, que conta com cobertura meticulosa e global, sendo que para isto muito contribuem os longos períodos entre álbuns aos quais os seus fãs já estão mais que acostumados.

Oito longos anos após o portento “Death Magnetic” e cinco após a desconcertante e não menos controversa peça avant-garde feita em colaboração com o entretanto falecido Lou Reed, o grupo norte-americano assinala o seu regresso aos discos de originais com este “Hardwired… To Self-Destruct”. Trata-se de um álbum duplo que ao todo contém mais de 77 minutos de música e que prima pela frescura e pela diversidade, seguindo a tendência natural dos Metallica.

Desde os riffs rápidos e implacáveis de “Hardwired” e “Moth Into Flame” à emoção visceral de “Halo On Fire”, passando pela viagem às paisagens sonoras da onda de heavy metal britânico dos anos 80 proporcionada por “Atlas, Rise!”, o groove rock a laThin Lizzy de “Now That We’re Dead” e o ‘sludge’ monolítico de “Dream No More”, o primeiro disco é, por si só, um triunfo estrondoso, perfeitamente capaz de rivalizar com qualquer um dos álbuns clássicos da banda.

No segundo disco deparamo-nos com um lado diferente da banda, mais experimental e orgânico, onde estes mergulham na onda ‘mid-paced’ e exploram até à exaustão a repetição, que chega a ser quase hipnótica, de riffs extremamente pesados e melodias cativantes. Destaque para as faixas “Confusion”, “Here Comes Revenge” e “Murder One”, que surgem antes da conclusão com chave de ouro, cortesia da frenética “Spit Out The Bone”.

A única crítica que me apraz fazer ao disco passa pela inclusão de “ManUNkind” e “Am I Savage?” que, apesar de serem temas interessantes por si só, poderiam ter sido excluídos da lista final, em prol de um trabalho mais conciso. Seja como for, tal não belisca a tremenda qualidade deste trabalho, no qual os Metallica voltam a provar que não são apenas um grande nome do passado, senão um colectivo com relevância no presente e, seguramente, no futuro da música.


Foto original de Daniel Laureano: Show Me Your Metal

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