Top 10 Álbuns de 1995 – Daniel Laureano

1995 foi o ano em que a Internet entrou de vez na consciência pública, através do sistema World Wide Web, o ano em que o astronauta Valeri Polyakov estabeleceu um novo recorde mundial ao estar quase 438 dias em órbita e o ano em que o lendário actor, músico e comediante Dean Martin faleceu.

Foi também o ano em que eu nasci e um ano recheado de grandes álbuns musicais, cujas descobertas estavam reservadas para o futuro e que têm dado cor à minha discografia pessoal, sendo certo porém que ainda haverá muitos álbuns do ano de 1995 à espera de serem descobertos por mim.

Assim sendo, submeti-me ao exercício de elaborar uma lista dos meus dez discos favoritos das ondas metal, rock e alternativa, deste que é o ano da minha génese.

Antes do número 10 deixo menções honrosas para os seguintes trabalhos: Love Is Colder Than Death “Spellbound” (Hyperium Records); Rammstein “Herzeleid” (Motor Music); Dream Theater – “A Change Of Seasons”.

10. Monumentum – “In Absentia Christi” (Misanthropy Records)

Esta minha lista começa com um álbum obscuro, do projecto Monumentum, uma banda fundada nos finais da década de 80, pela mão do italiano Roberto Mammarella, conhecido como o fundador e líder da editora Obscure Plasma, que entretanto se renomeou Avantgarde Music.

“In Absentia Christi” é o primeiro álbum dos Monumentum e foi-me apresentado por um bom amigo que me disse que era o álbum perfeito para ouvir no escuro e de olhos fechados. Quando o ouvi pela primeira vez concordei plenamente: neste trabalho o darkwave lento, negro e extremamente atmosférico, leva o ouvinte por um trilho místico e quase transcendental, onde a influência de nomes seminais da onda gótica/darkwave como Fields Of The Nephilim ou Christian Death (particularmente na voz, onde malogrado Rozz Williams salta à memória) é notória, sem nunca ofuscar, contudo, a criatividade e originalidade das composições.

Desde a abertura, com “Battismo: Nero Oscuro” e “A Thousand Breathing Crosses” aos autênticos poços de experimentalismo que são “La Noia” e “In Misery Front Row” existe uma consistência qualitativa impressionante ao longo de toda a obra, mas é nas melodias orientais, desconcertantes e sombrias de “Consuming Jerusalem” que o álbum atinge o seu zénite.

9. Carcass – “Swansong” (Earache Records)

Os Carcass são um nome incontornável para o metal, sendo considerados pioneiros do grindcore e do death metal melódico, e particularmente aclamados pelos seus contributos nestes dois campos. Ora, eu defendo que existe um terceiro campo onde os nativos de Liverpool foram extremamente inovadores e arrojados, no caso o último álbum que lançaram antes do seu recente regresso, “Swansong”.

Este “Swansong” é um álbum controverso. Nele, a banda optou por explorar novos campos, introduzindo vários elementos de rock ‘n’ roll clássico na sua sonoridade, a fazer lembrar uns Entombed na fase do “Wolverine Blues” e fazendo-os conviver com a voz gutural e a intensidade instrumental que sempre os caracterizou. Esta mudança acabou por alienar vários fãs, os quais sentiram que a banda tinha perdido ao se afastar em demasia daquilo que tinham vindo a explorar nos últimos trabalhos.

Confesso que não concordo com esta ideia, visto que sou fã deste disco e da sua onda rock absolutamente viciante desde que escutei a faixa “Black Star” pela primeira vez quando tinha cerca de 13 anos de idade. Aos olhos de hoje este continua a ser o meu tema favorito do disco, sendo que também me apraz destacar as faixas “Cross My Heart” e “R**k The Vote”, neste que é, sem dúvida, o meu álbum favorito dos Carcass.

8. Darkthrone – “Panzerfaust” (Moonfog Productions)

De um nome incontornável do death metal passo para os Darkthrone, um nome incontornável do black metal norueguês e também este um colectivo que nunca se limitou à cópia de si próprio, tendo vindo até a intensificar a exploração de diferentes sonoridades nos tempos mais recentes.

“Panzerfaust” é o quinto álbum do duo FenrizNocturno Culto e é a jóia da coroa da sua fase BM. Trata-se de um trabalho que refinou ao máximo as ideias exploradas na famosa ‘Unholy Trinity’ (título dado à sequência “A Blaze In The Northern Sky”-“Under A Funeral Moon”-“Transilvanian Hunger”) e as fez convergir com novas ideias, num total de 39 minutos de música crua, abrasiva e orgânica, com aquela atitude punk à qual os Darkthrone nunca fugiram.

O disco é bastante mais diversificado do que pode parecer à primeira ouvida, por entre os blasts de “En Vind Av Sorg”, o d-beat de “Triumphant Gleam”, a atmosfera doentia de “Quintessence”, cujos riffs nasceram em Storm, projecto no qual participou Fenriz (do qual também falarei mais à frente) e cujas letras nasceram da mente do infame Varg Vikernes, a.k.a. Burzum. O destaque maior vai, contudo, para o tom ritualístico e avant-garde de “Snø Og Granskog”, este que é sem dúvida um dos momentos mais arrojados da carreira dos noruegueses, naquele que também é um dos seus álbuns mais arrojados. “Panzerfaust” foi um dos primeiros álbuns de black metal que escutei e permanecerá para sempre como um dos meus favoritos.

7. Rainbow – “Stranger In Us All” (RCA Records)

Em meados dos anos 90, e após um regresso aos Deep Purple no qual ajudou a criar alguns dos melhores discos da carreira do lendário grupo britânico, como “Perfect Strangers” e “The Battle Rages On”, Ritchie Blackmore voltou a abandonar os nativos de Hertford e não demorou a reviver o seu outro colosso, os igualmente lendários Rainbow.

As incarnações anteriores dos Rainbow tinham consistido numa primeira fase com Ronnie James Dio ao microfone, da qual saíram os clássicos “Ritchie Blackmore’s Rainbow”, “Rising” e “Long Live Rock ‘N’ Roll”, e numa segunda fase, marcadamente mais comercial, onde Ritchie colaborou com vocalistas como Joe Lynn Turner e Graham Bonnet; e replicar o sucesso, tanto de uma como da outra, nunca seria uma tarefa fácil.

Ora, neste “Stranger In Us All”, que é até à data o ultimo álbum de originais dos Rainbow, o jovem vocalista Doogie White foi incluído no grupo e, juntamente com Ritchie e o resto da banda, criou aquele que me parece ser o melhor disco desde a mítica trilogia dos anos 70 – um tremendo álbum de hard rock que conta com a entusiasmante “Wolf To The Moon”, a épica “Ariel” e as melodias medievais de “Black Masquerade” (claramente precursoras do projecto Blackmore’s Night), bem como readaptações do clássico de Grieg “Hall Of The Mountain King” e da histórica “Still I’m Sad”, uma original dos The Yardbirds.

6. Scorpions – “Live Bites” (PolyGram/Mercury Records)

Posso dizer, com segurança, que sem os Scorpions eu não estaria a escrever sobre música; nem teria passado os últimos 12 anos da minha vida a dedicar-me intensamente à apreciação e criação da tradicional quarta arte, uma vez que foi através da lendária banda alemã que me apaixonei verdadeiramente pela música, no já longínquo ano de 2005, quando ouvi a “Wind Of Change” pela primeira vez.

No seguimento desta minha descoberta, o álbum “Live Bites” foi um dos primeiros discos que alguma vez comprei (talvez mesmo o primeiro de sempre), nesse mesmo ano de 2005, pelo que assumo que tem um lugar muito especial na minha discografia. Não o escolho para esta lista somente devido a este facto, contudo, uma vez que a música presente nesta colectânea de energéticas performances ao vivo apresenta os comandados de Klaus Meine e Rudolf Schenker no topo das suas capacidades, tanto a nível técnico como emocional, numa década em que muitos já se preparavam para fazer o enterro prematuro do colectivo de Hannover.

A tracklist oferece uma retrospectiva bastante completa do catálogo do grupo à data; e contém uma fantástica performance de “In Trance”, única representante dos 4 álbuns que a banda lançou com o guitarrista Uli Jon Roth, na década de 70. Esta versão de “In Trance” é mesmo o maior destaque do álbum, mas também “Rhythm Of Love”, “Crazy World” e a emocionante “Living For Tomorrow”, bem como as duas faixas de estúdio presentes na cauda do disco, “Heroes Don’t Cry” e “White Dove”, que fecham aquele que é, na minha opinião, o álbum ao vivo mais relevante dos Scorpions – e, claro está, um dos meus favoritos de sempre.

5. Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows – “Todeswunsch – Sous Le Soleil De Saturne” (Apocalyptic Vision)

Em 1995 o então ainda recente projecto da misteriosa Anna-Varney Cantodea (na altura conhecida somente por Varney) já tinha criado sérias ondas no círculo da Neue Deutsche Todeskunst, com o disco de estreia “…Ich töte mich…”, trabalho que fez com que os olhos da cena gótica mundial se começassem lentamente a virar para o desabrochar do mundo sombrio de Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows.

Este “Todeswunch”, com um pormenor do quadro “Morte da Virgem”, do pintor renascentista Caravaggio, como capa, foi o segundo assalto de Anna-Varney, que nele operou mudanças significativas, substituindo o som industrial e agressivo do primeiro disco por melancólicas e depressivas melodias folk, fortemente inspiradas no período barroco – algo que viria a assumir-se como uma característica fulcral da música de Sopor nos anos seguintes.

A atmosfera dos temas tem tanto de bela como de triste (um delicado balanço que este projecto tem sido exímio a alcançar), tendo também uma excelente articulação de referências e citações directas de outras obras artísticas – Como nos temas “Shadowsphere” (Partes 1 e 2), baseado nos riffs do tema “Under The Sun”, dos Black Sabbath; “The Devil’s Instrument”, que contém versos escritos por Rozz Williams dos Christian Death e “Die Bruderschaft Des Schmerzes”, uma das primeiras homenagens que Cantodea fez ao mítico escritor Edgar Allen Poe.

4. Ulver – “Bergtatt – Een Eeventyr i 5 Capitler” (Head Not Found/Century Media Records)

Os lobos selvagens e multiformes que conhecemos hoje ainda eram uma novata banda de black metal no ano em que lançaram o seu LP de estreia, sendo que todos os membros do colectivo liderado, por Kristoffer Rygg, tinham idades compreendidas entre os 18 e os 19 anos. Contudo, seria extremamente redutor classificar este trabalho como apenas mais um simples álbum do género que pulsava na Noruega em meados da década de 90.

“Bergtatt” é um álbum que mostra ao mundo os primeiros passos de um grupo de autênticos visionários, que começaram por revolucionar a própria ideia vigente de como o black metal deveria soar, ao aliar voz coral, melodias de flauta e suaves interlúdios de guitarra acústica à extrema distorção das guitarras eléctricas e aos blast-beats abrasivos, intercalados por passagens extremamente atmosféricas, – algo que veio a influenciar toda uma onda de bandas com raízes no BM atmosférico, como os Alcest e os Agalloch, entre outros.

No entanto, não é só na paleta sonora que este trabalho brilha, sendo a parte conceptual igualmente forte – a história sobre uma pequena menina nórdica que se perde numa floresta de trolls (interessante metáfora para o estado do metal nacional em 2017) remete a uma antiga lenda dinamarquesa e, em concordância, todas as letras são cantadas num antigo dialecto arcaico, precursor das línguas norueguesa e dinamarquesa actuais.

De facto, faixas como “Capitel II: Soelen Gaaer Bag Aase Ned” e “Capitel V: Bergtatt – Ind I Fjeldkamrene”, bem como o restante conteúdo do disco, cativaram-me intensamente desde o primeiro contacto, por serem a perfeita representação sonora de tudo o que os antigos contos nórdicos sugerem, levando o ouvinte numa bela viagem pelo frio dos bosques e montes rodeados por névoa e mistério.

3. Moonspell – “Wolfheart” (Century Media Records)

Enquanto os Ulver se estreavam na Noruega, despontava no nosso Portugal um outro grupo que vinha explorando e expandindo os limites do black metal – e que mais tarde viria a tornar-se a maior e mais internacionalmente reconhecível banda do país.

Falo naturalmente dos Moonspell e do seu disco de estreia “Wolfheart”, uma autêntica masterclass de atmosfera e melancolia, dada através da composição cativante, arranjos a versar tendências góticas e a voz ainda neófita do líder Fernando Ribeiro, que ainda assim não deixa de surpreender pela intensidade e entrega, fazendo relegar a importância da destreza técnica para segundo plano.

A imprevisibilidade do alinhamento é um dos grandes pontos de interesse deste disco, que vai desde o black/goth poderoso de “Wolfshade” à antémica “Alma Mater”, passando por folk (“Lua d’Inverno”, “Trebaruna” e a excluída do pressing original “Ataegina”), pelos castelos sangrentos da Transilvânia (“Vampiria”) e pelo mundo literário, com um dueto inspirado no misterioso Marquês de Sade (“An Erotic Alchemy”). Esta impressionante variedade acaba por nunca comprometer a consistência dos temas e a identidade sonora da banda, que aparece em ponto de destaque pela originalidade e pujança aqui demonstradas.

Reflectindo um pouco mais sobre este disco, a coisa que mais me impressiona é verificar como uma banda oriunda de um solarengo país do sul da Europa logrou criar um conjunto de temas que soa tão frio e místico como qualquer colectivo nórdico, o que prova que a criação de verdadeiras atmosferas não está sempre forçosamente ligada ao ambiente físico que rodeia os seus criadores, mas sim às paisagens mentais que habitam os seus imaginários.

2. Storm – “Nordavind” (Moonfog Productions)

Mantendo-nos no belo mundo da música atmosférica regressamos à Noruega, onde o ano de 1995 trouxe o único trabalho de um interessante supergrupo composto por 3 personalidades muito distintas: Satyr, dos Satyricon; Fenriz, dos Darkthrone e Kari Rueslåtten, uma cantora soprano que na altura tinha acabado de abandonar o grupo experimental The 3rd And The Mortal.

A breve existência deste grupo terminou abruptamente quando Satyr e Fenriz se desentenderam com Kari relativamente aos significados controversos de algumas das letras que escreveram para o disco. A produção também criou alguma picardia uma vez que Fenriz a viu como demasiado polida para o seu gosto, acabando mais tarde por usar o seu projecto Isengard para lançar “Høstmørke” como resposta.

Este “Nordavind” contém 10 faixas, que ao todo correspondem a cerca de meia hora de música, onde a banda recupera melodias presentes em músicas tradicionais norueguesas e lhes faz arranjos rock/metal, um conceito que poderia correr mal se não fosse feito com a mestria e bom gosto que aqui verificamos: todos os temas têm o seu devido espaço para respirar e os clichés do género são quase inexistentes, algo extremamente refrescante em obras deste tipo.

Após a bela abertura acústica “Innferd”, os ritmos dançáveis de “Mellom Bakkar Og Berg”, “Håvard Hedde” e “Oppi Fjellet”, são complementados pelos interlúdios vocais de Fenriz (“Nagellstev”) e Kari (“Lokk”) e intercalam perfeitamente a batida lenta e emocionante de temas como “Langt Borti Lia”, “Villemann” e “Noregsgard”, isto antes do disco terminar com “Utferd” dos mais belos outros que alguma vez escutei.

O maior ponto de interesse deste disco é a sua belíssima atmosfera que, tal como no disco dos Ulver, é extremamente eficaz, ao criar fantásticas paisagens mentais que remetem para a ambiência nórdica e que levam o ouvinte numa fantástica viagem, – que apenas lamento ser tão curta.

1. Paradise Lost – “Draconian Times” (Music For Nations/Relativity Records)

Há certas músicas, e certos discos, que nos marcam muito profundamente, seja por terem um grau de qualidade muito acima da média – e que encaixa perfeitamente no nosso gosto, ou pela casualidade de termos tido contacto com ele numa qualquer altura particularmente marcante da nossa vida.

No meu caso este “Draconian Times”, dos lendários Paradise Lost, corresponde a ambos, sendo que a altura em que escutei o seu som incrivelmente emocional pela primeira vez foi precisamente numa altura incrivelmente emocional para mim, na qual estava carente de peças de arte que me enchessem o espírito e me fizessem sentir esperança no futuro, razão pela qual, num raro momento de fanboy-ism da minha parte, fiquei extremamente contente quando tive a oportunidade de o ver assinado pelos membros da banda, (no VOA de 2014).

Por muitos considerado a jóia da coroa da discografia do icónico conjunto britânico, e com boa razão para tal, trata-se de um álbum onde todas as características da fase gothic metal que atravessaram nos anos 90 foram refinadas ao seu ponto mais alto e que precedeu uma mudança de direcção ainda mais drástica, na forma de uma interessante aventura pelos campos da synthpop e do rock alternativo, de ‘97 até à virada do século.

A voz de Nick Holmes, a oscilar entre quente e gritty, e que dá vida às letras reveladoras do desespero humano quanto aos sentimentos difíceis de controlar e à busca de curas para o coração, faz parceria com a emoção que jorra dos solos de guitarra de Greg Mackintosh e os riffs envolventes de Aaron Aedy, que são por sua vez auxiliados por uma secção rítmica de uma criatividade instrumental fantástica, com particular destaque para a bateria – que logra ser tão simples como memorável –, através de pequenos detalhes que adornam os temas de forma subtil mas genial.

Na verdade, quando se fala de um trabalho como este apetece dar destaque a todas as faixas; mas mesmo neste panorama há umas quantas que merecem algumas palavras:

Primeiro “Enchantment”, o tema de abertura do disco que se tornou um dos mais icónicos de toda a carreira da banda, e cujos ritmos lentos e melancólicos marcam o tom para o que se segue. Depois, uma sequência brilhante de temas com “Hallowed Land”, “The Last Time”, “Forever Failure” e “Once Solemn”, antes de chegar a “Shadowkings”, um dos temas mais emocionantes de toda a carreira da banda e que representa um dos pontos mais altos do disco, que segue na máxima força antes do seu final épico, na forma do tema “Jaded”.

Assumindo a dificuldade da tarefa de resumir um trabalho que me diz tanto a uma frase de remate final, diria: “Draconian Times” é um disco para a eternidade e de audição obrigatória para todo o fã das sonoridades cativantes e envolventes desta onda gothic/doom, da qual os Paradise Lost são os maiores porta-estandartes.


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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