Sons de Vanguarda – A Importância Da Inovação

Cerca de quarenta anos após o primeiro uso do termo “heavy metal“, chegamos a um ponto onde não só existem imensos festivais de tamanho considerável, como também existem milhares de bandas dedicadas a este género musical, algumas sendo bastante famosas. Com uma fanbase na casa dos milhões e um alcance geográfico impressionante, este fenómeno cultural massivo fez mais do que manter-se à tona no mar da relevância social, através de um crescimento contínuo de ritmo impressionante. Um dos maiores catalisadores deste crescimento exponencial é, sem dúvida, o factor inovação.

O metal é um dos géneros musicais contemporâneos com maior grau de diversidade, abrangendo um espectro massivo de sonoridades distintas. Apesar de não ser grande fã da catalogação excessiva no que toca a subgéneros, seria infantil não reconhecer que a música extrema é um conceito que está em constante mutação. Um dos alimentos principais deste titã é o experimentalismo levado a cabo por várias bandas emergentes, bem como por bandas mais antigas que audaciosamente decidiram renovar o seu som.

Eu sei que para alguns é difícil aceitar o facto de o metalcore e o nu-metal terem ajudado a elevar tudo isto, mas a verdade não deve nada aos vossos sentimentos.

Estes senhores e senhoras cuja inventividade é comparável apenas ao seu gosto por música agressiva são, discutivelmente, aqueles que mais contribuem activamente para a esta tapeçaria sonora rica e fluída, sendo graças a eles que as nossas necessidades musicais colectivas são constantemente realizadas.

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Wacken Open Air 2006 (em blog.santorock.com)

Apesar da animosidade de alguns face ao que é novo, a inovação constante é um dos factores principais que ajudaram a música extrema a chegar onde está. A equação é relativamente simples, não é preciso tirar um curso: mais diversidade é igual a mais bandas e mais fãs, que por sua vez acabam por entrar em contacto com outras bandas e sonoridades, criando uma fanbase sólida em constante crescimento, eventualmente originando um nível de procura que teve como oferta a quantidade imensa de bandas no activo, bem como imensos festivais e eventos – alguns deles de tamanho considerável como o Wacken ou Hellfest -, circuitos underground muito activos e dinâmicos, gerando constantes saídas e reentradas no mainstream. Eu sei que para alguns é difícil aceitar o facto de o metalcore e o nu-metal terem ajudado a elevar tudo isto, mas a verdade não deve nada aos vossos sentimentos.

Dificuldades e riscos inerentes à inovação

É extremamente fácil recorrer à simplicidade de pegar numa guitarra, aprender os básicos e proceder a simplesmente copiar algo que já existe (ou existiu). Em relação a bandas que tentam desbravar caminho, as bandas pouco ou nada originais sofrem consideravelmente menos transtorno – já têm noção de quem é o seu público alvo e já sabem como se apresentar visualmente em questões de design gráfico e fotografia, bem como na sua apresentação e postura de palco.

é indiscutível que inovar é consideravelmente mais complicado e exige mais criatividade do que simplesmente imitar

As bandas que imitam sem grande esforço de inovação servem como autênticos manuais de instruções que aliviam os músicos do fardo de arriscarem a exposição ao ridículo. Tudo (ou quase tudo) que fazem, fazem-no com a certeza de resultar a algum nível, sendo, no máximo, acusados de falta de originalidade – algo que podem sempre contrariar com o argumento de “serem fiéis às raízes” ou alguma desculpa esfarrapada do género.

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Kurt Ballou é guitarrista de Converge e produtor musical com um estilo muito próprio e original. Responsável pela sonoridade actual de projectos como Nails, Code Orange, Trap Them e Darkest Hour, bem como da sua própria banda (em noisey.vice.com)

Não digo que este tipo de músicos deva desaparecer da face da Terra, considerando que há espaço para todos e cada um encara a arte à sua maneira. No entanto, é indiscutível que inovar é consideravelmente mais complicado e exige mais criatividade do que simplesmente imitar. Além disso, é possível que a inovação deixe marcas bem mas duradouras: bandas grandes como Black Sabbath, Iron Maiden e Metallica chegaram ao cume da popularidade parcialmente devido a terem trazido algo de novo à mesa na altura em que surgiram – mesmo que tal não seja necessariamente verdade no caso dos seus últimos trabalhos. No entanto, essa mesma criatividade está igualmente (ou talvez mais) presente em projectos menos mainstream, como é o caso de bandas como Code Orange, BolzerBaroness e até os nossos Sinistro.

Controvérsia e publicidade à borla

Nos dias que correm, ainda existem casos onde a banda dita “original” chega a um público maior apenas por alterar alguns trejeitos que são essencialmente vacas sagradas de alguns subgéneros de metal, irritando os fãs mais conservadores. Quer sejam casos isolados ou situações mais abrangentes – como a ascenção do nu-metal e dos géneros de core à popularidade imensa que possuem hoje em dia – o próprio acto de fazer algo diferente pode dar origem a uma das melhores máquinas de publicidade de sempre a nível de relação qualidade/preço – trves amuados.

Onde há conformismo, perde-se a revolta contra ideias pré-estabelecidas, e, consequentemente, não há inovação.

A arte funciona num paradigma quase newtoniano – se para cada acção há uma reacção, para cada movimento artístico há um designado a opor-se ao mesmo. Juntar isto ao conceito de “não existe publicidade negativa” resulta em fenómenos de bandas e até géneros musicais inteiros a chegaram ao reconhecimento internacional tanto graças aos seus fãs como aos seus haters.

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Babymetal com Gary Holt e Kerry King dos Slayer (em babymetal.net)

A controvérsia e a oposição são necessárias para manter a dinâmica, e, por associação, manter o género vivo. Se todos gostarmos do mesmo e concordarmos em tudo, não acompanhamos o progresso inexorável do tempo. Onde há conformismo, perde-se a revolta contra ideias pré-estabelecidas, e, consequentemente, não há inovação. Um género musical que sofre desses males torna-se eventualmente numa paródia de si próprio, e eu próprio já sinto isto ao ver e ouvir algumas bandas supostamente sérias que, por louvarem demasiado os anos 80, são pouco mais do que paródias acidentais. Por estas e outras razões, as bandas de metal devem continuar a agitar as águas dentro e fora do seu microcosmos musical – é o que somos, e é o que fazemos.

Adaptar ou morrer

Os tempos e as mentalidades mudam, e apesar do meme “a boa música é intemporal” ser cuspido constantemente (porque é verdade), convém não esquecer o facto de ser provavelmente impossível um género musical manter-se relevante sem inovar, diversificar e adaptar-se aos tempos. A inovação e consequente renovação do plantel de grandes nomes, ironicamente, é o caminho que auxilia a evitar que os grandes clássicos sejam esquecidos. Quantos da minha geração não começaram a ouvir música extrema graças a bandas como Slipknot, Avenged Sevenfold ou System Of A Down, sendo que esse gosto adquirido os impeliu a descobrir bandas clássicas como Death, Judas Priest ou Celtic Frost? Certamente, muitos apreciam de fazer de conta que aos onze anos já queimavam igrejas com o Varg – porque o metaleiro também também tem a sua própria noção de street cred – mas a verdade é que nem todos começam pelo extremo, e isso não tem mal nenhum.

que fique presente o conceito de darwinismo musical – adaptar ou morrer.

Agora que afugentei os mais puristas com lógica e factos, surge a velha questão: queremos que o metal seja mainstream, ou que continue um fenómeno de nicho? Até desenvolvia mais essa questão, mas a verdade é que basta olhar em volta: vivemos num país minúsculo, no entanto, há eventos de música extrema para todos os gostos e mais alguns, bem como fãs e infraestrutura para os suportar – se crescimento é sinónimo disso, por mim tudo bem. Se um dia a estrutura ficar demasiado grande e colapsar sob o seu próprio peso (como já aconteceu), nada temam: os inovadores do futuro cá estarão para comandar o processo de reconstrução, e o ciclo irá renovar-se. Até lá, que fique presente o conceito de darwinismo musical – adaptar ou morrer. Não sei quanto a vocês, mas adaptação soa-me muito melhor!

P.s.: Deixo convosco uma playlist do Spotify onde estão reunidas aquelas que para mim são algumas das sonoridades actuais mais inovadoras dentro do metal, incluindo algumas faladas neste artigo. Divirtam-se!


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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