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Lamentações e limitações

Nos últimos anos, a ascensão da esquerda regressiva primou pelo endeusamento do discurso politicamente correcto, através de constantes esforços de implementação de Marxismo cultural. Este fenómeno social, que trata qualquer forma de expressão que ofenda alguém como um alvo a abater, é impulsionado por indivíduos que tentam ao máximo controlar a individualidade do próximo devido a serem demasiado imaturos para controlar as suas próprias emoções.

Para o metal, o género musical globalmente mais ligado à intransigência e ao valor de choque, isto é um problema que me preocupa. Sou músico, actualmente envolvido em três projectos distintos para os quais contribuo com letras, sendo eles Moonshade, A Constant Storm e Vímara. Como escritor, não sou alguém que prima pelo valor de choque, optando antes por exorcizar os meus demónios de maneira mais filosófica, alegórica e introspectiva. No entanto, à semelhança de qualquer outro artista, não gosto de sentir que a minha liberdade criativa está limitada por pressões externas de carácter social. É mais difícil um artista ser fiel a si mesmo num mundo onde os adultos não têm personalidade para lidar com a ofensa.

As várias faces da censura

Há alguns sinais que demonstram que cultura do politicamente correcto se está lentamente a infiltrar na da música pesada. Invoco como primeira prova um incidente relativamente recente que envolveu um Phil Anselmo bastante embriagado e uma saudação nazi, algo que, apesar de não ser particularmente encantador, nem chega ao meu Top 30 de atitudes estúpidas cometidas por bêbados, considerando que vi muita coisa em seis anos de universidade. No entanto, resposta do público à infantilidade do ex-vocalista de Pantera foi algo de uma intensidade tal que me fez crer que tinha sido o próprio Phil a matar aqueles seis milhões de judeus! A revolta era visível e a ocorrência estava na boca de todos os fãs de música extrema, culminando em tentativas constantes de sabotagem de um dos actuais projectos do Phil Anselmo, os Down. Tudo isto por, literalmente, um gesto, ainda que fosse uma expressão de valores desprezíveis. Na minha modesta opinião, a reacção histérica do público em geral foi quase tão idiota e infantil como a atitude que originou essa reacção.

É também comum ver em qualquer grupo do Facebook ligado ao metal uma boca ou uma crítica receberem infinitamente mais atenção do que posts sobre bandas, visto que, para muitos, a ofensa é uma prioridade em relação à arte.

Outro exemplo particularmente desagradável para mim foi ver o próprio Sam Dunn, uma personalidade influente no meio, a dedicar tempo de antena do seu programa online “Lock Horns” a uma convidada que se veio queixar da quantidade enorme de “micro-agressões” que sofria no âmago da comunidade dos fãs de música extrema. Para os que não sabem, uma “micro-agressão” é um conceito recente que, essencialmente, permite classificar o acto de alguém ouvir/ler o que não gosta como uma agressão. Neste caso em particular, ela considerou como agressão o acto de alguém lhe fazer perguntas com o intuito de aferir se ela realmente era fã de uma certa banda. É também comum ver em qualquer grupo do Facebook ligado ao metal uma boca ou uma crítica receberem infinitamente mais atenção do que posts sobre bandas, visto que, para muitos, a ofensa é uma prioridade em relação à arte.

Enquanto isso, a população em geral também aplica a sua própria versão de censura, como foi o caso dos grupos antifa que sabotaram concertos de Peste Noire, Bolzer, Nargaroth, Satanic Warmaster, Inquisition e até dos nossos Corpus Christii, tudo isto por não concordarem com o conteúdo lírico, ou com a ideologia de um membro, ou, no caso dos Bolzer, por causa de uma tatuagem! Outros exemplos são a caça às bruxas que levou ao cancelamento de vários concertos de bandas maiores (Cannibal Corpse, Cradle of Filth, Marilyn Manson) pelo governo russo em colaboração com as instituições religiosas do país, e inclusive aqui em Portugal, onde queixas da população obrigaram o XXXicken Fest a mudar de local, trazendo grandes problemas à organização, tudo por causa da natureza provocatória do festival.

(continua abaixo)

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O possível caminho a seguir

Devido à massiva quantidade de crenças e ideologias que existem na nossa sociedade, é impossível não sermos confrontados com o que não gostamos, no entanto, aprender a lidar com isso de maneira correcta faz parte de ser um adulto responsável. Se nos censurarmos a nós próprios, quem somos nós para dizer que os outros não nos podem censurar? É precisamente por isso que devemos ser os primeiros a ter uma postura digna face à ofensa. Caso contrário, corremos o risco de subscrever a um esquema corrupto onde o medo de ofender e ser ofendido tomariam precedência em detrimento da liberdade de expressão. A partir do momento que damos carte blanche ao exagero de sensibilidade, é apenas uma questão de tempo até a inevitável censura do conteúdo artístico.

A arte em geral, incluindo o metal, é um veículo de expressão pessoal, e a escolha de ser ofensivo e provocatório recai só e exclusivamente na vontade do artista. No entanto, este tipo de direcionamento cultural, onde a sociedade não proíbe directamente mas oprime intensivamente qualquer arte tida como ofensiva através de reacções exacerbadas e ocasional histeria em massa, é essencialmente uma forma dissimulada de censura que prejudica a expressão individual e abala as fundações da arte que adoramos. A única solução é, simplesmente, compreender que estarmos ofendidos não nos dá o direito de procurar silenciar o próximo de qualquer maneira, até porque o silêncio e o metal não combinam!

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Biólogo, músico e escritor freelance com a mania que sabe tudo.