Considerando que a vida não é só reclamar, este artigo consiste, muito basicamente, numa lista de projectos nacionais que se encontram no extremo favorável do espectro da qualidade no que toca a música nacional. Por razões óbvias, optei por evitar falar de bandas que, apesar de serem óptimos projectos, não carecem de divulgação, visto já serem nomes extremamente conhecidos na praça (Moonspell, Bizarra Locomotiva, Quim Barreiros, etc.). Fica o seguinte aviso: isto não é serviço público, mas sim uma lista honesta de projectos musicais que merecem mais divulgação, independentemente de ainda estarem no activo ou não. Dito isto, desenganem-se aqueles que acham que esta crónica será mais um pedaço de lixo cibernético que não faz nada mais senão constatar o óbvio de maneira pseudo-rebelde e com piadas forçadas – mas pensam que isto é o quê, a VICE? Eu tenho algo chamado “padrões”: dou informação de qualidade de maneira pseudo-rebelde e com piadas forçadas. Portanto, sem mais delongas:

A Dream Of Poe

Uma banda absolutamente espectacular! “Mirror Of Deliverance” é, sem dúvida, um álbum que perde pouco para outros gigantes do doom, sendo um prazer poder ouvi-lo sempre que me lembro. Estes açoriânes já se encontram a preparar um álbum novo, do qual lançaram um teaser que promete bastante.

Darkside Of Innocence

Um projecto que sempre me agradou bastante, tanto pela vibe reminiscente a Dimmu Borgir como pelos vocais limpos espectaculares e instrumental invejável. Apesar de já terem terminado, o membro fundador e principal compositor cede os seus talentos a The Autist, uma banda que aparenta estar a preparar um álbum brutal, se julgarmos pelo single “Pandora’s Curse”.

Dark Oath

Não há muito a dizer aqui. Todos os que me conhecem sabem que Dark Oath encaixa que nem uma luva no tipo de sonoridade que mais me agrada, além de possuírem uma qualidade inegável para quem tem dois ouvidos minimamente funcionais. Já os conheço há algum tempo, mas foi “When Fire Engulfs The Earth”, o seu último lançamento e actual magnum opus, que me conquistou verdadeiramente, posteriormente cimentando a minha admiração com uma épica performance na última edição do VOA Fest. Tive o distinto prazer de partilhar palcos com eles algumas vezes, da mesma maneira que também partilhamos um óptimo baixista e amigo. Dito isto, é possível que ponderem se não os ponho aqui por interesse, e eu até podia perder tempo a contra-argumentar, mas a música deles fala por si.

Necromanther

Chegamos, enfim, ao momento mais hipster desta crónica, mas não se preocupem, haverá outros; sou pretensioso demais para ficar por aqui. Necromanther era um one man project com dois lançamentos excelentes, sendo eles “Between Mankind And Extinction” e “World Of Sungrave”. Devido a possuir uma sonoridade difícil de definir – principalmente para quem tem alergia à catalogação excessiva que assombra o metal contemporâneo – digamos, para efeitos de entendimento mútuo, que Necromanther encaixa no que poderia chamar de metal extremo. No entanto, o seu alto grau de progressividade e originalidade tornam esta banda num pilar indestrutível do metal nacional no que toca a originalidade, sendo que não recebeu nem um terço da atenção que merece.

Daemonarch

Nada mais, nada menos do que o projecto a solo de Fernando Ribeiro, com um único álbum lançado em 1998. “Hermeticum” é uma obra ligeiramente diferente do que Moonspell nos habituaram, principalmente quando comparado à sonoridade actual da banda, sendo um álbum de produção crua e composição mais bruta e directa, possuindo vagas semelhanças ao “Anno Satanae”. Os fãs de sonoridades mais pesadas e old school têm aqui algo digno de explorar, desde que não venham com coisas de “Ai e tal isso não é nada, o verdadeiro old school era antes dos anos noventa!”. A sério, não sejam essa pessoa, os vossos pais não merecem.

The Godiva

Foi daqueles projectos que descobri tarde demais para poder ter o privilégio de ver ao vivo. No entanto, são uma banda especial para mim, visto que foram percursores: banda pioneira, dos primeiros em terras lusas a tocar um estilo de death metal recheado de melodia e groove, uma tocha (ou cruz) que eventualmente foi parar às mãos (ou costas) de bandas como, por exemplo, Moonshade. Além disso, obviamente, adoro as músicas deles, principalmente o EP “Spiral”, sendo que este projecto não merece cair na espiral do esquecimento! Em contrapartida, não se pode dizer o mesmo relativamente a trocadilhos horríveis e às pessoas que os fazem.

Sinistro

Não disse que iria haver mais momentos hipster? A abordagem extremamente original dos Sinistro em relação ao doom é um mimo para apreciadores de sonoridades melancólicas. A vocalista Patrícia Andrade possui um timbre incomparável dentro do metal enquanto género musical, presenteando o instrumental arrastado com uma fortíssima dose de soturnidade. O seu último trabalho, o EP “Semente”, foi carinhosa e merecidamente apadrinhado pela Season Of Mist, e merece a atenção de todos os fãs do género, sejam ou não possuidores de barbas bem aparadas e óculos de massa. Só para que conste, eu já ouvia Sinistro antes de ser fixe! Mentira, só conheci com este último EP, mas ouçam na mesma, é fixe.

Forbidden To Fly

Finalizemos com algo original, bem tocado e bem longe de ser a típica banda de core. Com um instrumental bastante característico, além de um vocalista com uma capacidade lírica exemplar que domina igualmente vocais limpos ou guturais, os Forbidden To Fly são talvez a minha banda nacional preferida no que toca a sonoridades mais modernas, sendo que são a segunda e última banda desta lista com quem já tive a honra de partilhar um palco. “Resilience”, a sua última obra, merece a atenção de todos os fãs do género! Os que não são fãs do género, como por exemplo o pessoal que estava a chorar por causa do excesso de bandas de core no Vagos Metal Fest, podem ouvir na mesma e entreter-se a pensar em razões que façam sentido para implicar com isto. Ou deixarem de ser parvos, também é uma opção.

Assim termino este pequeno manifesto, esperando que esta dissertação dantesca dê um pouco mais de atenção a projectos que merecem. Um grande obrigado à LusoMetalAlbuns por me deixarem usar e abusar do conteúdo do seu canal de Youtube. Peço humildemente que ouçam e partilhem estas bandas com o intuito de engrandecer o que tivemos e temos de bom, porque a boa música é, acima de tudo, para ser celebrada com toda a admiração que merece!


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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Biólogo, músico e escritor freelance com a mania que sabe tudo.