Reflexões Sobre A Componente Lírica Da Música Extrema

Eram capazes de valorizar um álbum objectivamente mal tocado, com erros a nível de tom e tempo? Por exemplo, guitarras desafinadas e/ou bateria dessincronizada? Se sim, este artigo não é para vocês. No entanto, para os que valorizam a execução técnica como um aspecto fundamental para a qualidade de uma obra, pergunto – e quando a letra em si é um atentado à arte da escrita?

A capacidade de escrever minimamente bem é um dom que nem sempre recebe o seu crédito devido no mundo da música extrema. À medida que escrevo isto, tenho a perfeita noção que posso muito bem ser linchado pelas opiniões que aqui serão expressas, sendo que a possibilidade de ser ignorado acaba por se apresentar como um cenário mais risonho. No entanto, para os poucos que decidirem abdicar do seu tempo e paciência para ler isto, peço apenas que tentem genuinamente compreender antes de atarem o nó de forca.

quais são as razões para haver uma quantidade desproporcional de escrita má ou tecnicamente correcta mas incrivelmente medíocre?

zeitgeist no rock e no metal traduz-se parcialmente na redução substancial da  da importância da capacidade lírica enquanto acréscimo à qualidade artística de cada peça. Apesar da existência de um núcleo de resistentes que ainda brilham pela sua escrita exímia, enquanto outros simplesmente deixaram de tentar, e a esmagadora maioria se situa algures no meio. A língua dominante na música extrema a nível mundial é essencialmente o inglês, algo que em si representa um problema grave pelo simples facto de não ser a língua materna da maioria dos escritores, aumentando a dificuldade de escrita consoante as apetências linguísticas do artista. Apesar do problema da má escrita ser mais prevalente em bandas underground, incluindo bandas portuguesas – cujos nomes não vou mencionar porque prefiro deixar a carapuça assentar naturalmente – também ocorre em bandas mais conhecidas, algumas que eu inclusive aprecio. Sepultura, Children Of Bodom e Korpiklaani são exemplos de bandas que fizeram carreiras inteiras com letras que são o equivalente a pôr um saco de plástico na cabeça da língua inglesa e sufocá-la lentamente numa morte agoniante. No entanto, a arte de escrever bem sempre fez parte da música extrema, como podem aferir pelas imagens deste artigo.

” The one whose past you now behold / Touch – The flesh, it is so cold / Turn away – You now have been told / Never to return, memories will last / In the future, you’ll think about the past / Never to forget what you have seen” (Death – Open Casket, 1988)

A questão da língua materna poderia ser uma óptima desculpa para os constantes pontapés na língua inglesa, incluindo erros de concordância, cai por terra no momento em que tomamos consciência que, tal como qualquer instrumento, a arte da escrita também se aprende. Mais ainda, nos dias que correm o contacto com a língua inglesa no dia-a-dia é constante – está na música que ouvimos, nas séries que vemos, nos artigos que lemos online. Acrescentando isto ao facto de haver formação académica obrigatória de inglês na esmagadora maioria dos países civilizados, surge a pergunta: quais são as razões para haver uma quantidade desproporcional de escrita má ou tecnicamente correcta mas incrivelmente medíocre?

“Time conceals itself in error / When all is turned to lie / Oh blissful rapture flee from me / The liquid light shares its grandeur / The spring of Eden shall never run dry / Creation holds its breath” (Dark Tranquillity – Edenspring (1995)

Uma delas, na minha opinião, é o aproveitamento descarado do facto das letras serem menos perceptíveis quando declamadas em estilos vocais altamente agressivos. Os letristas sabem disto, e muitos deles prostituem esse facto através de um desleixo intenso na escrita, porque “não se percebe e não”, aproveitando-se dessa mesma realidade para contrabandear conteúdo lírico extremamente medíocre em conjunto boas composições musicais. Diametralmente, o público também não liga tanto às letras porque não estão acessíveis imediatamente no que toca a percepção imediata. Nem todos os fãs se incomodam a ler as letras, seja online ou no booklet dos álbuns que compram, e os poucos que de facto lêem muitas vezes se encontram condenados a simplesmente ignorar a letra para poder apreciar a música. Ainda existem letristas excelentes que sobem a parada para todos os que estão atentos, que por sua vez são muito poucos. O meu problema com isto é fácil de explicar – existem várias maneiras de aferir a qualidade de um álbum (produção, performance, originalidade, etc.) e o conteúdo lírico é, ou devia ser, uma delas.

“Her soul was sold and for this toll / Reeking pyres ever smouldered / On the whims of one so in control / Elizabeth, mysterious / Cruelty brought thee orchids / From the bowels of the abyss” (Cradle Of Filth – Cruelty Brought Thee Orchids, 1998)

Permitam-me repetir – o meu objectivo não é ser alarmista. O bom liricismo no metal ainda vive e está de boa saúde, sendo que o objectivo deste artigo não é simplesmente criticar aqueles que contribuem para promulgar uma apreciação artística deficiente e de algum modo insinuar que são a maioria (que não são), mas antes alertar que que há imenso para ser apreciado em letristas bons, e que devemos exultar esses mesmos letristas de modo a preservar a arte de bem escrever no seio da música extrema.

o importante é perpetuar o que merece ser perpetuado

Por exemplo, a complexidade, os jogos de palavras e as subtilezas de escritores como os presentes nas imagens deste artigo – entre muitos outros –  são verdadeiras obras de arte cuja validade poética é tal ao ponto de nem necessitarem da música para serem vistas como tal. Mesmo dentro da esfera lusa temos excelentes exemplos como o de Rui Sidónio dos Bizarra Locomotiva. No entanto, até certo ponto é raro ver ou ouvir alguém a exultar a proficiência técnica destes senhores no que toca à escrita, apesar de muitos escreverem numa língua que não é deles como se de facto fosse. No entanto uma boa parte do público não aparenta valorizar o seu esforço enquanto letristas, pelo menos não tanto como valorizam um solista espectacular ou um baterista altamente técnico.

“From green to red our days pass by / Waiting for a sign to tell us why / Are we dancing all alone? / Collect some stars to shine for you /And start today ‘cause there’s only a few / A sign of times my friend” (In Flames – Trigger, 2002)

 

“So many years to clean the slate / Endless despair within its wake / His touch soiling what used to be clean / His gaze burning on the edge of our dreams” (Opeth – Heir Apparent, 2008)

A melhor parte é que todos podemos contribuir, não precisamos de escrever num blog ou de estar envolvidos nos media de qualquer maneira, basta fazer copy paste da letra para as redes sociais, postar, enviar a amigos, ou até – se forem nerds e não tiverem vida própria, tal como eu – chegarem ao ponto de debater o assunto numa mesa cheia de bons amigos e boa cerveja. Ou então pintem a letra num cartaz e andem pela rua fora com um sininho atado onde vos der mais jeito, fica ao vosso critério – o importante é perpetuar o que merece ser perpetuado, seja de que maneira for. Não garanto que a sugestão do sininho ajude de alguma maneira, mas nada como experimentar.

“And when my bankrupt neck / And my skull full of debt can’t stand / I’m making my way towards death’s wooden door / And I’ll bring a fucking battering ram / In the name of the kindred dirt / In the name of our failures, in the name of our failures well-earned” (Trap Them – Hellionaires, 2016)

Portanto fica aqui o meu conselho para todos os fãs de música extrema: não precisam de renegar os vossos artistas preferidos só porque escrevem menos bem, nem eu quero que o façam – peço apenas que leiam e apreciem com espírito crítico aquilo que os vossos criadores preferidos escrevem, e que façam um esforço para apreciar as mensagens que os vossos vocalistas e letristas preferidos vos deixam. Só porque a letra não se percebe à partida, não significa que não valha a pena ler e apreciar a mesma, e só temos a ganhar com a procura por boas letras, porque essa procura cria oferta.

não há uma maneira “certa” de apreciar arte

Por outro lado, considerando que cada um aprecia arte à sua maneira e nem todos temos obrigatoriamente de colocar a proficiência lírica num pedestal –  porque não há uma maneira “certa” de apreciar arte – peço que considerem tudo o que eu disse como meras sugestões que talvez vos façam encontrar mais beleza onde antes não viam, ou, na pior das hipóteses, vos farão ter a plena noção do conteúdo artístico dos álbuns que adoram. E aos escritores digo apenas: se possuem a presença de espírito para entender que o melhor que conseguem é mau, abram um livro e tentem melhorar – não se contentem com a mediocridade porque, colectivamente, somos capazes de melhor. Deixo-vos com uma playlist de grandes letristas, e por hoje é só. Boas leituras!

P.s.: Este artigo não contém muitas piadas porque a arte é uma coisa séria #jorge #sqn


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

GuardarGuardar

GuardarGuardar

Comentários