Actualmente, existem quase trinta subgéneros diferentes de metal, muitos deles sendo facilmente distinguíveis entre si. Thrash, power, death, black metal, heavy, e todos os outros géneros que daí surgiram, incluindo alguns mais recentes como o folk metal ou o metalcore, esta catalogação digna de um zoólogo particularmente esquisito mudou a maneira como falamos e pensamos sobre o género musical que é o metal.

Em primeiro lugar, não há como debater contra a enorme diversidade sonora que o metal possui, por exemplo: bandas como Manowar e Cannibal Corpse são intrinsecamente diferentes em, bem, quase tudo – inclusive nas escolhas de vida no que toca a sessões fotográficas. Por razões como esta, entende-se a necessidade de haver catalogação e diferenciação, sendo que, hoje em dia, alguém perguntar “Olha mostra-me aí uma banda de metal!” é um pedido altamente vago, exigindo algum uso do conceito de “subgéneros” para afunilar as nossas procuras online e para orientar melhor as nossas conversas. No entanto, surge a dúvida: até onde devemos levar isto?

ATÉ ONDE DEVEMOS LEVAR ISTO?

Hoje em dia dá-se uma importância exacerbada aos subgéneros e consequente encaixotamento das bandas. É comum ver cartazes onde por baixo fazem questão de ter entre dois e cinco nomes diferentes que descrevem o nome da banda em questão, e todas as bandas querem ter um subgénero próprio para sentir que reinventaram a roda, dando origem a parvoíces desnecessárias como o “pirate metal” – não me interpretem mal, adoro Alestorm, mas esse suposto subgénero causa-me dor na alma derivado de vergonha alheia.

Às vezes, os fãs de música ficam obcecados em fazer parte de uma scene onde possuem aquele pequeníssimo nicho artístico que lhes permite sentirem-se special snowflakes, deixando de se confrontar a si próprios com coisas novas e diferentes, porque isso requer encaixe mental

A meu ver, certos termos como, por exemplo, “neoclassical technical death metal” são desnecessários, pretensiosos e exageradamente descritivos, até ao ponto onde mais vale porem-nos a escrever uma crónica aqui na MOSHER TV para eu me poder reformar. Este tipo de especificidade exagerada no discurso pode inclusive condicionar o percurso musical da banda, quer seja de maneira consciente ou inconsciente, visto que tanto os fãs como os músicos acabam por se prender mentalmente ao habitualmente pequeníssimo alcance musical da banda, ambos reagindo mal à perspectiva de ligeiras mudanças no estilo da composição e consequentemente criando carreiras aborrecidas onde o mesmo álbum é lançado repetidamente, com uma roupagem ligeiramente diferente para não serem acusados de falta de originalidade – é a mesma coisa, mas calma, pontualmente tem diferenças!

Do meu ponto de vista pessoal – em toda a sua subjectividade inerente-, eu acho intelectualmente limitado (e absolutamente canceroso) quando alguém vomita estupidez deste género:

Ya, man, tipo eu só curto mesmo X

Entenda-se X como o subgénero ou par de subgéneros mais específicos à face da Terra. Estas pessoas que praticamente só ouvem um subgénero de metal são pessoas que eu considero artisticamente deficientes, no sentido em que não possuem as capacidades cognitivas necessárias para apreciar um grande número de tipos diferentes de música metal, quanto mais perceberem de arte musical em geral, considerando que o metal é apenas uma exoplaneta do universo musical.

Algures pelo Twitter.

Às vezes, os fãs de música ficam obcecados em fazer parte de uma scene onde possuem aquele pequeníssimo nicho artístico que lhes permite sentirem-se special snowflakes, deixando de se confrontar a si próprios com coisas novas e diferentes, porque isso requer encaixe mental, e encaixe mental requer esforço mental, e esforço mental é chato. Dá menos trabalho ouvir cento e cinquenta bandas praticamente iguais entre si para depois terem uma lista enorme de bandas que só eles conhecem com o objectivo de consequentemente poderem ter algo que os faça sentir musicalmente iluminados, como se soubessem um segredo que a “plebe” não sabe. Obviamente, isto vem acompanhado de gosto superficial por outro tipo de bandas (que se contam pelos dedos) para não poderem ser acusados de falta de ecletismo musical; longe disso, 99% do que ouvem pertence ao mesmo sub-sub-sub-subgénero de metal, mas aquele 1% é super variado!

Isto é, acima de tudo, uma óptima ferramenta para os machos à procura de parceira nos concertos, considerando que a melhor maneira de lhes suscitar um desejo ardente é aborreceram-nas de morte com as aquelas diatribes sobre como uma banda é melhor do que a outra, apesar de serem ambas praticamente iguais.

O QUE É METAL?

Outra coisa relativamente nojenta é aquela não-crítica constante a certas obras musicais, que consiste basicamente numa miríade de variações do seguinte:

Isso nem é metal.

Este argumento poderosíssimo que faria Descartes cortar os pulsos na banheira é só e apenas uma alarvidade de proporções épicas. Insinuar que metal é melhor do que qualquer outro género musical, ou debater a entre dois subgéneros específicos, é como dizer que maçãs são melhores do que pêras – são gostos, é tudo subjectivo, ser de X género não é uma virtude nem um defeito, por favor parem de achar que sim porque os vossos pais não andaram a criar um filho para isto.

Dito isto, meus amigos, se vos serviu a carapuça, saibam que ninguém vos impede de serem assim – estamos num país livre. Só estou a dizer que acho parvo e consequentemente a fundamentar essa afirmação. Concluindo, não se colem demasiado a subgéneros nem se fechem em caixinhas, há demasiada arte espectacular por aí para estarem a ouvir sempre do mesmo – sempre arroz também enjoa!

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Biólogo, músico e escritor freelance com a mania que sabe tudo.