Modificação, alteração, transformação, transmutação, transfiguração – são os sinónimos de “mudança” que eu fui pesquisar para parecer extremamente intelectual. Agora que vos deslumbrei de rajada com a minha escrita de qualidade soberba, aproveito para dar uma de Capitão Óbvio ao anunciar que este artigo é sobre aquela coisa que melindra imenso os fãs mais hardcore de qualquer género musical – a evolução.

Globalmente falando, a mente de um artista está em mutação constante. Esta evolução musical – parcialmente semelhante à evolução das espécies por selecção natural –  não é necessariamente boa nem má, mas antes um subproduto do ambiente que rodeia o projecto, ou seja, um esforço de adaptação face a certas pressões. Seja pela vontade de tocar outras coisas ou pelo desejo de alcançar mais público (ou até ambos em simultâneo), a sonoridade da maioria dos artistas altera-se inevitavelmente. Obviamente, nada disto se aplica a certos baluartes incomparáveis da estagnação cultural, como o pimba, o kizomba, ou as quatrocentas e cinquenta mil cópias foleiras de Marduk e D.R.I. que andam por esse mundo fora.

É preciso um mínimo de coragem para lançar um álbum fadado a desagradar a maioria da fanbase da banda

No entanto, defeitos pontuais à parte, o metal é globalmente um dos géneros musicais com mais variedade dentro da música contemporânea, provando que as vozes mais conservadoras são, geralmente, pouco mais do que palha ao vento. Pessoalmente, aprecio quando uma banda não lança sempre o mesmo álbum, no entanto, quando a mudança me diz pouco ou nada, surge assim a modos que uma vontade de ir para o Facebook reclamar disso, e às vezes quase que vou, mas depois lembro-me que tenho vida e pronto, acabo por ficar quieto – o mesmo vale para toda a arte que me desagrada.

O termo “vendido”, infelizmente, é usado excessivamente ao ponto de perder qualquer significado

É preciso um mínimo de coragem para lançar um álbum fadado a desagradar a maioria da fanbase estabelecida, sendo quase redundante relembrar que, na esmagadora maioria dos casos, o “novo som” ser melhor ou pior é incrivelmente subjectivo. Infelizmente, como resposta automática à mudança, o termo “vendido” é usado excessivamente pelo público geral ao ponto de perder qualquer significado que alguma vez tenha tido. Creio que, no fundo, todos temos noção disso, sendo essa a principal razão pela qual não pretendo aprofundar mais o assunto. Dito isto, deixo convosco um pequeno apanhado de bandas relativamente conhecidas que, por não temerem a experimentação, levaram o seu som a terras muito distantes em relação a onde começaram.

Amorphis

The Gathering (Karelian Ishtmus, 1992)

Karelian Ishtmus foi o primeiro álbum da banda, um ano depois do lançamento da demo Disment Of Soul, que por sua vez desmentiu a necessidade de bons lançamentos de música metal precisarem de títulos gramaticalmente correctos (estou a brincar – foi muito antes disso). Aqui podemos ouvir uns Amorphis tremendamente mais crus, low-fi e pesados, um álbum mais apropriado para quem deseje ouvir death metal mais oldschool, se bem que já é possível notar pausadamente algumas secções mais melódicas que por sua vez serviram essencialmente como um prefácio para o estilo de composição que foi, efectivamente, a maioria da sua carreira.

Sacrifice (Under The Red Cloud, 2015)

O tema Sacrifice foi o primeiro single do último álbum da banda, Under The Red Cloud. Depois de passarem por imensas flutuações entre sons mais e menos agressivos, os Amorphis tornaram-se mestres em misturar aspectos mais épicos e melódicos das suas influências com os elementos mais extremos das mesmas, fazendo uso total da sua liberdade criativa para fazer música sem limites e sem medo de ser um melting pot musical e sendo merecidamente recompensados com a aceitação e adoração dos seus fãs. Relembro que dia 28 de Julho a banda irá tomar Famalicão de assalto com o intuito de promover esta obra genial.

Katatonia

Brave (Brave Murder Day, 1996)

Um exemplo menos extremo do que o anterior, se bem que não menos impressionante. Brave Murder Day, o primeiro álbum dos suecos Katatonia, soa-me a uma mistura extremamente envolvente entre death metal melódico e rock gótico, resultando em algo notoriamente distinto da banda que pisou os palcos do VOA no ano passado. Apesar da diferença a nível instrumental ser notória, a disparidade mais marcante acaba por residir nos vocais.

Old Hearts Fall (The Fall Of Hearts, 2016)

Mais dedicados à exploração de sons menos agressivos ao ouvido, Katatonia continuam a apostar principalmente no seu rock melancólico tão característico, que executam com mestria. Jonas Renkse trocou os guturais pela voz limpa, que por sua vez se tornou um marco do metal europeu. Temas como a tristeza, a melancolia e a saudade são recorrentes, impecavelmente acompanhados a nível instrumental. A sua passagem pelo VOA em dois anos diferentes, inclusive no ano passado, confere o termo de comparação necessário para atestar que estes músicos estão em melhor forma do que nunca. Old Hearts Fall é um dos singles do seu último lançamento, The Fall Of Hearts, um tema genial que demonstra perfeitamente os Katatonia de hoje.

Woods Of Ypres

Crossing The 45th Parallel (Against The Seasons: Cold Winter Songs From The Dead Summer Heat, 2002)

Este álbum vem da altura em que era extremamente original e intelectual atribuir títulos a la Eça de Queiroz. À semelhança de alguns dos exemplos anteriores, demonstra um início mais extremo na forma de uns Woods Of Ypres dedicados ao black metal mais progressivo. No entanto, no final da sua carreira curta – tragicamente terminada pelo falecimento do vocalista David Gold – estes senhores já tinham feito experiências com um pouco de muito, inclusive doom, rock n’ roll, entre outros.

Career Suicide (Is Not Real Suicide) (Woods 5: Grey Skies & Electric Light, 2012)

Ao comparar este álbum com sonoridades mais antigas dos Woods Of Ypres podemos imediatamente atestar duas coisas: a diferença a nível de agressividade e a enorme versatilidade vocal de David Gold, não tanto a nível de alcance tonal, mas no domínio de vários estilos distintos e respectiva conjugação dos mesmos. Talvez uma das músicas mais emblemáticas deste lançamento, Career Suicide (Is Not Real Suicide) representa perfeitamente o quão longe os Woods Of Ypres viajaram, sendo um tema essencialmente rock com laivos de outros subgéneros de metal, os quais, na minha opinião não é relevante precisar – deixo a cargo do ouvinte.

Opeth

The Forest Of October (Orchid, 1995)

Opeth são, sem sombra de dúvida, uma banda que chegou aos níveis mais altos de popularidade dentro do metal. Tudo começou, essencialmente, com Orchid, uma estreia brutal situada muito longe dos Opeth de hoje em dia, cuja sonoridade ronda menos (ou quase nada) à volta do metal, estando mais na área do rock progressivo. Indiscutivelmente mais extremo e complexo – tornando-o difícil de digerir para o público mais mainstreamOrchid é um álbum que, na minha opinião, redefiniu o metal extremo e a música em geral. Tenho de admitir que para mim nenhum dos temas desta obra se destaca demasiado dos restantes, sendo que considero todas as faixas brilhantes e o álbum em si como um dos melhores lançamentos da década de 90.

The Wilde Flowers (Sorceress, 2016)

The Wilde Flowers é um dos singles de Sorceress, o último lançamento de Opeth até à data. Longe de ser a primeira vez que esta banda experimenta sonoridades mais leves, não deixa de simbolizar a mudança mais marcante que se deu após o álbum Heritage, onde a banda se dedicou exclusivamente a este estilo composicional. Não posso dizer que a produção me agrade, no entanto, felizmente não penso o mesmo relativamente às músicas em si. Apesar de achar que o som ficou globalmente menos original – sendo que essencialmente retiraram o metal e substituíram-no com a faceta de rock progressivo que já tinham – posso dizer que gostei razoavelmente das composições deste último álbum. Seja como for, e opiniões pessoais à parte, não há como negar que estamos incrivelmente longe do velho Orchid.

Paradise Lost

In All Honesty (Host, 1999)

Paradise Lost são, ainda mais do que Amorphis, uma banda que se especializou em “flutuações sonoras”, à falta de melhor termo. Host, o sétimo álbum de estúdio deste projecto, é apenas um dos muitos exemplos possíveis. Por si só incrivelmente diferente da estreia Lost Paradise, ou do clássico Draconian Times, ou até do mais recente The Plague Within, Paradise Lost provaram que o sucesso é perfeitamente possível para uma banda ecléctica com interesse em várias sonoridades distintas. No caso particular deste lançamento, podemos ouvir rock gótico/synth pop, complementado com os vocais barítono de Nick Holmes. Um álbum arrojado que apesar de não ser a reinvenção da roda dentro género a que se propõe, foi uma volta de 180º que redefiniu a carreira da banda.

Beneath Broken Earth (The Plague Within, 2015)

Complementando o que foi dito no parágrafo anterior, aqui podemos ouvir o expoente máximo destes Paradise Lost incrivelmente inspirados no doom, algo que para eles não era novidade, sendo que vários lançamentos anteriores a este eram essencialmente da mesma índole. O gutural de Nick Holmes, que regressou em força neste último álbum, é apenas uma amostra da versatilidade invejável desta banda. Parcialmente audível nestes dois temas, essa versatilidade é, sem sombra de dúvida, algo que ajudou o projecto a manter-se relevante durante todos estes anos. Gostando ou não, há que reconhecer que Paradise Lost são óptimos compositores e, em geral, músicos excelentes, tal como comprovado pela sua passagem no VOA 2016. Convém referir que The Plague Within, o álbum ao qual pertence este single, é uma obra-prima que tem tanto de variedade musical como de qualidade intrínseca.

Pantera

Ride My Rocket (Metal Magic, 1983)

Não sei até que ponto o passado “obscuro” de Pantera é conhecido, mas decidi levantar o assunto devido o achar igualmente hilariante e interessante. Esta estreia espectacularmente anos 80 denomina-se Metal Magic, e faz parte de um conjunto inicial de álbuns que os Pantera  posteriormente decidiram deixar cair um pouco no esquecimento – sendo possivelmente uma das razões pelas quais os ditos álbuns não se encontram disponíveis nas plataformas de streaming. Esta fase incrivelmente glam vem equipada com uns Pantera vestidos com roupa de senhora, como manda a lei, e, obviamente, temáticas recheadas de sugestividade marota. Apreciem!

Yesterday Don’t Mean Shit (Reinventing The Steel, 2000)

Aqui não há mesmo muito a dizer: todos conhecem e quase todos adoram esta banda mítica que, gostos à parte, deixou uma marca absolutamente inegável na história do metal. A escolha desta música deve-se exclusivamente ao facto de ser a minha favorita da banda, sendo que, como fã, aprecio tudo o que lançaram deste o mítico Cowboys From Hell. No que toca à fase glam destes senhores, digamos apenas que não é bem a minha onda e que o mais importante é ter saúde.

In Flames

Artifacts Of The Black Rain (The Jester Race, 1996)

O álbum de estreia de In Flames redefiniu o death metal, moldando o som de bandas como Morbid Angel e Possessed com poderosas injecções de escalas maiores e influências retiradas de géneros menos agressivos, subindo bastante a parada relativamente ao que Amorphis fizeram com o clássico Tales From The Thousand Lakes. The Jester Race estabeleceu muitas bases que influenciaram alguns dos actuais gigantes do metal, como Amon Amarth e Arch Enemy, fazendo deste uma obra indispensável que envelheceu consideravelmente bem, sendo que muitos (incluindo eu) ainda o ouvem como se tivesse saído ontem. Artifacts Of The Black Rain é, discutivelmente, o tema mais icónico desse lançamento.

Through Oblivion (Siren Charms, 2014)

No ano passado os In Flames presentearam-nos com Battles, um lançamento que mistura as suas características mais recentes com alguns laivos da sonoridade antiga. No entanto, o real choque para a fanbase da banda consistiu no lançamento anterior a este, denominado Siren Charms. Aqui ouvimos uns In Flames indiscutivelmente mais orientados para as massas, com uma sonoridade mais pop complementada com várias piscadelas de olho ao metalcore (inserir piada homossexual aqui). Siren Charms é um álbum que prolongou ainda mais a linha de pensamento iniciada no Sounds Of A Playground Fading, representando o lado oposto da moeda para esta banda, que por sua vez não foi muito bem recebido pelos admiradores dos trabalhos anteriores da banda. Through Oblivion é o quarto tema do álbum, e, na minha modesta opinião, um dos pontos mais fortes do mesmo.

Ulver            

Hymne IV (Nattens Madrigal, 1997)

Ulver são uma banda tão incrivelmente versátil que eu estou há dois anos a tentar descobrir se sou fã ou não. Como vários outros exemplos neste artigo, estes entraram a pés juntos com um lançamento extremo que é actualmente um álbum de referência dentro do black metal – o icónico Bergtatt. Três anos e um álbum de folk depois (Kveldssanger – o meu favorito pessoal), regressam pela segunda e última vez ao metal extremo, na forma de Nattens Madrigal. Ainda mais pesado e low-fi do que o seu álbum de estreia, Nattens Madrigal acaba por ser o lançamento mais extremo da banda, sendo que depois disto foi essencialmente “bar aberto”. Nunca mais se ouviu metal vindo dos Ulver, mas boa música não faltou, abrangendo uma miríade de géneros e influências distintas.

Southern Gothic (The Assassination Of Julius Caesar, 2017)

O ideal é falar em lançamentos separados, visto que no caso deste projecto, a frase “não há dois álbuns iguais” é levada ao extremo. Não são uma banda de metal, nem de nenhum género em particular, são apenas um conjunto musical. Este exemplo é apenas um entre dezenas que poderia referir de maneira a demonstrar o apreço desta banda por experimentar sonoridades diferentes, mas é tão bom como qualquer outro, e honestamente, faz parte de um dos meus lançamentos preferidos deles, um álbum brilhante feito à medida para fãs de Depeche Mode e sonoridades semelhantes. Apesar de desgostar da maioria da discografia desta banda, reconheço que são, sem sombra de dúvida, músicos com enorme habilidade e absolutos reis da versatilidade musical.

Por hoje é só, meus caros. Apesar dos exemplos dados serem bandas extremamente conhecidas, convido-vos a investigar os projectos que não conhecerem, bem como a relembrar aqueles que já conhecem – de preferência usando o Spotify e/ou comprando os álbuns para contribuir um pouco para os músicos que tanto se esforçam para nos entreter. De resto, espero sinceramente que tenham apreciado, e para os que não gostaram, deixo-lhes isto. Saúdinha!


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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Biólogo, músico e escritor freelance com a mania que sabe tudo.