Com praticamente duas décadas de existência, os Corpus Christii são um nome incontornável no black metal mundial. A propósito da sua próxima atuação, no Mosher Fest em Coimbra (sábado), entrevistámos Nocturnus Horrendus, que abriu o livro acerca da história da banda, black metal e um pouco mais.


MOSHER TV – Vocês são uma banda com uma longevidade e reconhecimento notáveis. Que principais diferenças (ou semelhanças) sentes na motivação e processos de composição entre a altura em que começaram e os dias de hoje?
NOCTURNUS HORRENDUS – Hoje em dia as coisas são bem diferentes. No início encontrava-me com o Ignis [Nox, teclista e membro fundador] e passávamos dias, se preciso… horas a fio a trabalhar em músicas. Demorávamos oito a dez horas só a programar a bateria no Fast Tracker. Éramos jovens, com disponibilidade, e muito – mas muito – ingénuos, mas isso foi bom; fez com que o fizemos fosse genuíno e puro. E é isso que tento manter, a ingenuidade e a pureza, o sentido puro de como eu vejo o black metal, o seu “core” graúdo e enraizado há já tantos anos.
Acredito no fundamentalismo em que este meio foi criado, nos seus fundadores, os que visionaram isto. Mesmo ter vindo de algo ou do nada, é um meio mágico, e eu mesmo hoje em dia, caio sempre num nevoeiro de fascínio pelo que estou a fazer. Eu e a guitarra ou uma letra, os arrepios no braço, a sombra que se põe sobre mim.
Posso ser mais velho, posso já ter 18 anos de Corpus Christi, mas quando faço algo, sinto como se fosse o meu primeiro dia.

O próprio black metal sofreu uma evolução ao longo destas décadas, com produções mais polidas, por exemplo. Sentes que este tipo de compromisso afeta a pureza da música ou é um “mal necessário” para que a música chegue a mais gente? Em última análise, será que as bandas simplesmente estao a usufruir de melhores condições e pronto?
Já em meados dos anos 90 tivemos bandas de black metal a usar a tecnologia mais recente (na altura) e a serem bem polidas. Então não é nada de novo, somente uma escolha de cada banda. Por vezes funciona, outras nem por isso. Não penso muito no assunto, se se adapta bem à música, é ok comigo – tem, sim, de se complementar.
Sei de álbums que podem soar podríssimos mas sei que custaram milhares de euros. E uns podríssimos, que custam dezenas. Outros, homemade mas super bem produzidos e super baratos; há de tudo. O black metal é incrivelmente polivalente.
Bandas “mal produzidas” chegam a dezenas de milhares de pessoas, portanto não se trata de produções. Nem vou por ai. Cada um sabe de si. Não tenho mais a adicionar, posso sim falar por mim; eu escolho o tipo de gravação dependente do tipo de música que o álbum que esteja a fazer precise. Já usei “boas” e “más” produções em Corpus Christii, por exemplo. A música tem de falar por si.

Pale Moon surgiu quatro anos depois do último álbum de Corpus Christii, com uma brutalidade sonora marcante a todos os níveis. Como tem sido a reação do público, em particular dos fãs mais acérrimos da banda?
Tem sido realmente surpreendente o facto de termos logo tantas boas reviews, isto visto o “Luciferian Frequencies” ter sido um album difícil de digerir por muito crítico. Então sim, foi agradável ver que as coisas correram menos ásperas, desta vez. Mas sinceramente no fundo tanto me faz; já mal se vende albums, é irrelevante. Interessa, sim, o número de pessoas nos concertos, e isso tem vindo a diminuir com os anos.
Faço música para mim, eu oiço os meus álbums, regularmente até. Eu sou o meu mais “acérrimo” fã, eu sim tenho de gostar, ouvir como se fosse uma obra prima, e assim tenho assimilado os meus trabalhos, felizmente.

Como é ser uma banda portuguesa em digressão no estrangeiro? A malta ainda se surpreende por haver metal a sair pelos poros desta nação?
Já pouca diferença faz, estão habituados em ver-nos na estrada, sabem de onde somos, sabem mais alguma coisa de Portugal, algumas bandas. Pouca coisa, mas começam a conhecer. Abrimos algumas portas, felizmente, sinto-me contente por poder ter contribuído dessa forma. Pena, sim, os portugueses/bandas não se aperceberem muito disso, ou cagarem de alto [risos]. Mas que se foda, sinceramente; o pessoal vem e vai, eu estarei cá a fazer o sempre fiz. Isto é o meu ópio.
Em relação às bandas de cá não saírem mais, é devido ao simples facto de serem molengonas, desorganizadas e pensam logo “go big or nothing”. Comecei do nada, já fui qualquer coisa relevante lá fora com Corpus Christii, agora diminuiu, e logo vemos de futuro. Não me deixo abater, faço isto porque gosto. Se fosse por outra razão, estaria bem fodido.

Vão encerrar a noite; o que esperas da atuação de CC neste Mosher Fest?
Puro black metal Satanista!

Deixa-nos com uma lista de álbums que andes presentemente a ouvir.
Prefiro não o fazer. Oiço imensa coisa, muitos álbuns ao dia. Não me fixo numa coisa, nem em poucas coisas.


Os Corpus Christii são co-headliners do Mosher Fest – Chapter IV, que ocorre este sábado em Coimbra. Bilhetes e mais informações em www.mosherfest.com/bilhetes.

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