O Metal Nacional No Feminino

Olá, vocês por aqui? Já não vos vejo desde o 25 de Abril de ’74. Numa tentativa de agradar ainda mais o público-alvo destas crónicas – vulgo, pessoas no mínimo das suas faculdades mentais que apreciam música pesada-, decidi convidar o meu camarada de armas em Moonshade, Daniel Laureano, para me auxiliar na elaboração deste artigo. Por sua vez, este consiste, muito basicamente, num formato diferente e inédito nestas crónicas – uma entrevista a quatro senhoras envolvidas na criação de música extrema de marca lusitana.

Antes de mais, porque fizemos isto, perguntam vocês? Bem, após uma pesquisa intensiva entre “artigos” e posts de Facebook dedicados exclusivamente à beleza corporal do sexo feminino, descobrimos que o nicho jornalístico que falta ser preenchido neste meio envolve reconhecer que as mulheres têm uma personalidade e opiniões, um exercício de pensamento que decerto não será muito complexo para quem tiver o número correcto de cromossomas. Dito isto, meus caros/as, com todo o prazer e sem mais delongas:

Sandra Oliveira (Blame Zeus), Sara Leitão (Dark Oath), Diana Rosa (11th Dimension) e Inês Freitas (Burn Damage)

Globalmente, acham que as mulheres são levadas a sério no metal, no sentido em que são elevadas ao mesmo padrão de exigência? Sentem algum nível de condescendência?

Sara Leitão – Acredito que sim, que as mulheres são levadas a sério, contudo também é verdade que a condescendência ainda paira no ar. Mas também sinto o oposto, o facto de haver mais exigência por sermos mulheres e haver certas “picuinhices” que se fosse um homem não ligariam tanto. Acho que a perspectiva pode ser variada nesta questão.

Sandra Oliveira – Sim, acho que somos levadas a sério, porque também trabalhamos para isso. Sinto que há um grande respeito, principalmente por parte dos fãs, pelas mulheres, sejam elas vocalistas ou instrumentistas, que não têm medo de subir ao palco, lado a lado com os muchachos, e agarrar a música com a mesma garra… ou mais até.

Tendo em conta que a maioria do público metaleiro é constituído por homens, obviamente que haverão sempre “opiniões tendenciosas” em relação à presença de uma mulher numa banda – Sara Leitão

Diana Rosa – A nível pessoal, pelo menos, a única condescendência que vejo é na hora de acartar material nos gigs, quando me tentam tirar coisas pesadas das mãos. Mas como eu até sou dotada de boa força física e não sou mais do que ninguém, normalmente respondo na brincadeira que “eu a carregar coisas sou um gajo como outro qualquer”, e sigo com o meu trabalho, tendo perfeita noção de que as ofertas de ajuda, quer seja necessária ou não, são sempre feitas com a melhor das intenções.

A nível musical, pensando tanto a nível global como a nível do nosso underground, não consigo encontrar nenhuma situação que demonstre que o nível de exigência sobre as artistas femininas seja diferente relativamente aos artistas masculinos. E na nossa cena em particular vejo as mulheres de bandas a serem bastante respeitadas, sem nenhuma diferença em relação aos seus pares masculinos.

Inês Freitas – Condescendência, não diria. A nível pessoal tanto oiço críticas positivas como negativas, e eu tento encarar isso de um ponto de vista constructivo e não olhar a esse tipo de distinção. Acho que o nosso meio se torna cada vez mais misto nesse sentido, e com isto pretendo dizer que existe malta extraordinariamente talentosa de ambos os sexos tanto numa banda, como a fotografar, escrever e promover.

Sentem-se de alguma maneira objectificadas na cena metal? Se sim, como lidam com isso?

Sara Leitão – Tento alhear-me disso, mas é uma realidade. Tendo em conta que a maioria do público metaleiro é constituído por homens, obviamente que haverão sempre “opiniões tendenciosas” em relação à presença de uma mulher numa banda. Hoje em dia vai sendo cada vez mais comum existirem bandas de metal com membros do sexo feminino, mas ainda não é assim uma coisa muito natural. Daí se calhar ainda haver esta necessidade de objectificar e de darem mais importância a certos atributos físicos do que à prestação da pessoa em si como artista.

Sandra Oliveira – Sim, um pouco, na medida em que por vezes sinto que o talento musical não é suficiente. E claro que isto não é exclusivo da cena metal: se és homem bastam-te umas calças e uma t-shirt e estás pronto; ninguém te vai apontar o dedo a dizer que vais para o palco como te vestes na rua. Com as mulheres é diferente, tens que te distinguir, tens que estar no ponto, tens que estar maquilhada… Há uma exigência maior neste campo. Para lidar com isso tento ser profissional, fazendo os possíveis para corresponder às expectativas, mas não deixo de ser quem sou só para agradar.

Ainda hoje oiço lá ao fundo o típico assobio ou comentário mais descontextualizado daquilo que estou  realmente ali a fazer, mas a tendência felizmente tem sido para diminuir – Inês Freitas

Diana Rosa – Eu não diria que me sinto objetificada, mas há aqui um fenómeno que por vezes se verifica que merece alguma reflexão.

É comum encontrarem-se em reviews de concertos e etc, menções à beleza das vocalistas femininas. Quer gostemos quer não, a partir do momento em que um artista se expõe num palco, todos os elementos da sua performance são alvo de crítica, incluindo a imagem; a juntar a isto, todos nós somos seres sensíveis à estética das coisas que observamos e, portanto, a mim não me incomodam minimamente esse tipo de comentários e aceito-os como uma consequência natural da exposição, desde que o principal foco da questão seja aquilo que realmente interessa: a música. O que me faz sentir a diferença de tratamento em relação às mulheres é que, de facto, este tipo de comentários jamais acontece em relação a membros de bandas masculinos. Portanto, sim, talvez se possa considerar isso uma forma de objetificação, mas vejo-a como algo característico da nossa cultura em geral, e não como algo específico da cena metal. Registar numa review um elogio à beleza física de uma mulher é algo globalmente aceite, mas fazer o mesmo em relação a um homem é considerado despropositado ou estanho.

As mulheres trazem uma nova abordagem ao rock e ao metal – Sandra Oliveira

Inês Freitas – Creio que com o passar do tempo, e à medida que as pessoas te vão conhecendo, existe uma abordagem diferente, diria até com mais respeito. Ainda hoje oiço lá ao fundo o típico assobio ou comentário mais descontextualizado daquilo que estou  realmente ali a fazer, mas a tendência felizmente tem sido para diminuir. Não querendo entrar demasiado nas minhas afiliações com os estudos de género, as mulheres tendem não só a ser objectificadas em muitas das artes que praticam como a ter as suas capacidades colocadas em causa, especialmente quando é uma “novidade”, e há que combater estas duas tendências com uma postura natural e descontraída. Houve momentos em que chegou a ser revoltante, mas com o passar dos anos apercebes-te que por vezes basta escolher as palavras e o tom correctos, sem necessidade de entrar em conflito, para fazer entender que o que realmente importa é que estás ali como um vocalista qualquer, sejas tu mulher, homem ou hermafrodita.

Qual é a vossa opinião sobre o papel do sexo feminino no metal? Achas que já passou o efeito-surpresa e já são encaradas como uma parte natural no meio?

Sara Leitão – Com o passar do tempo, vai ficando cada vez mais normal. Contudo, também não é uma circunstância que passe despercebida mas o efeito-surpresa vai diminuindo. Acaba por haver mais curiosidade quando existe um membro feminino, na minha opinião, mas como vai sendo cada vez mais comum, vai acabar por se dissipar.

Sandra Oliveira – As mulheres trazem uma nova abordagem ao rock e ao metal. Penso que já não há factor surpresa, e a não ser em casos extremos, penso que o pessoal já encara bem o nosso papel e aprecia a lufada de ar fresco.

Em relação ao papel do sexo feminino no metal, não queremos que seja de forma alguma diferente do masculino. Estamos aqui essencialmente para fazer música, para quem a quiser apreciar – Diana Rosa

Diana Rosa – O efeito surpresa, felizmente, já foi ultrapassado ao nível das vocalistas, inclusive até das growlers, mas em termos de instrumentistas ainda estamos muito longe disso. Sendo frontwoman de uma banda com uma baterista feminina sinto que existe sempre um certo espanto por parte das pessoas ao perceberem que temos uma mulher nas baquetas, mas eu vejo esse espanto como uma reação normalíssima, dado existirem tão poucas, e não como algo discriminatório. A única forma de equilibrar e normalizar as coisas passaria por uma maior adesão por parte das próprias mulheres a este meio musical, algo que ainda não acontece tanto assim. O rácio de homens/mulheres a nível de público já se vai esbatendo, mas a nível de executantes a diferença ainda é bastante notória.

Em relação ao papel do sexo feminino no metal, não queremos que seja de forma alguma diferente do masculino. Estamos aqui essencialmente para fazer música, para quem quiser apreciá-la.

Inês Freitas – Creio ainda haver um certo espanto da parte de alguns face a essa questão, regra geral, quem me vê à primeira vista em cima de palco e me aborda fora dele repara no contraste de postura, de expressão e (inevitavelmente) no tom da voz. Cheguei até ter críticas negativas quanto a isso, pessoas que me chegaram a dizer que “se sou feminina fora de palco também o deveria ser em cima dele”. Aqui tenho que discordar. Como em todos os tipos de arte trata-se de algo que fazes primeiramente para ti e que te faça sentido de alguma maneira, e nessa medida creio que não vai ser o sexo ou a aparência a diferenciar a forma como deve ser encarado. À primeira talvez disperte o factor curiosidade, mas com o tempo, creio existir uma habituação natural.

Bem, caros senhores, senhoras e hermafroditas, basicamente é isto! Só resta agradecer a estas artistas pelo seu input e também pela péssima decisão de carreira que tomaram ao quererem colaborar connosco. Consideramos que este artigo cumpriu o seu objectivo se vos fizer pensar duas vezes antes da próxima vez que gritarem “Ó BOA!!” para uma artista que só está ali a fazer o que lhe compete. Ou então comecem a comentar o físico dos machos em palco – com toda a estranheza que isso implica- mas que de alguma forma haja igualdade, e acima de tudo, boa música!


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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