Humildes Sugestões De Quem Tem A Mania

Em plena honestidade, a minha ideia inicial era fazer um simples e aborrecido top de “álbuns do ano”. Após ter criado um texto ligeiramente mais divertido do que um funeral, parei no Café Telhadinho  do C.C. Stop antes do ensaio da banda para rever as baboseiras que tinha escrito e investigar alguns artigos do género. Após algum esforço de pesquisa, apercebi-me de algo terrivelmente irónico: em última análise, ninguém quer saber.

Há um grau limitado de atenção dado relativamente a quantas bandas os críticos e cronistas conhecem, do grau de hipsterismo dos nossos gostos, de que bandas de amigos queremos publicitar para “apoiar”, ou do quão mais iluminados somos em comparação ao ouvinte comum, pela seguinte razão: a maioria dos críticos e cronistas não é particularmente mais versada na arte musical do que um simples fã – contam-se pelos dedos os poucos que entendem o suficiente para sequer saberem pôr um Ré à frente de um Dó, e desse parco conjunto há uma quantidade ínfima que entendem de produção musical e ainda menos são os que se dignam a reconhecer a relatividade inerente ao conceito de “bom gosto”. Convém realçar que não estou minimamente interessado em tentar demonstrar que tenho gostos refinados/eclécticos ou o quão versado supostamente sou relativamente à quantidade de artistas que conheço, visto ser perfeitamente possível alguém conhecer mil discografias e simultaneamente ser incapaz de compreender uma que seja.

(…) ficam aqui aqueles que foram, para mim, os álbuns mais marcantes do ano, em conjunto com um pedido sincero para que comprem os álbuns de que gostarem, ou então que os oiçam, pelo menos, usando o Spotify, de modo a contribuir um pouco para os artistas – eles merecem!

O gosto pessoal é algo incrivelmente pessoal e magnanimamente desinteressante para quem não está dentro da cabeça do escritor, e considerando que não estou aqui para vos aborrecer de morte, esventrei tudo o que tinha escrito, culminando em cinco simples sugestões englobando os lançamentos que mais me marcaram neste ano de 2016. Tendo em conta que não faz sentido insinuar que maçãs são melhores do que pêras, estas sugestões serão dadas sem ordem nem noção de “melhor” ou “pior”, de maneira a respeitar a subjectividade musical, e aproveito para informar que a descrição das razões do meu apreço por estas obras é, pura e exclusivamente, a minha opinião pessoal – algo que deveria estar implícito, mas que alguns iluminados continuam sem conseguir entender, tendo em conta as profundezas negras desse mar de comentários cancerosos que é a internet. Dito isto, ficam aqui aqueles que foram, para mim, os álbuns mais marcantes do ano, em conjunto com um pedido sincero para que comprem os álbuns de que gostarem, ou então que os oiçam, pelo menos, usando o Spotify, de modo a contribuir um pouco para os artistas – eles merecem!

Insomnium – Winter’s Gate

Apesar de serem geniais, os Insomnium deixaram de ser conhecidos pela sua diversidade musical. Com maior o sucesso do espectacular Across The Dark, a banda aparentemente usou esse lançamento como fórmula-base para criar os dois álbuns seguintes, que apesar de brilhantes, deixavam um pouco a desejar no que toca a inovação. Tudo isso mudou com a manobra incrivelmente arrojada e louvável que foi o álbum Winter’s Gate – uma única música, com a duração de quarenta minutos, dando uma banda sonora ao aclamado conto curto com o mesmo nome, escrito pelo vocalista Niilo Sevänen. Surpreendentemente, este lançamento consegue ser mais variado do que muitos álbuns de metal onde supostamente as faixas não estão interrelacionadas, o que diz mais sobre a cena metal em si do que diz da capacidade criativa da banda. Este álbum é, sem dúvida, uma obra-prima conceptual, uma composição incrível de mérito próprio onde é possível captar muitas influências distintas, desde black metal a King Crimson, e pode ser igualmente apreciado por inteiro ou em separado, sendo que a versão em CD encontra-se dividida em sete faixas diferentes – correspondentes a sete actos da história – que possuem uma identidade própria fortíssima, não dependendo exclusivamente do contexto geral da obra para serem apreciadas pela sua mestria e genialidade. O louvável risco que os Insomnium correram ao dar voz à sua liberdade criativa em detrimento de possíveis vendas e fama faz-me suspeitar que esta será uma obra que vai perdurar como um clássico intemporal na discografia desta banda.

Alcest – Kodama

Este pequeno regresso às origens de Alcest foi maioritariamente recebido de braços abertos, e eu arriscaria a dizer que este álbum conseguiu, por si só, inverter a fama histórica da França, sendo que desta vez foi o mundo que se rendeu aos franceses. Pela primeira vez em muito tempo conseguimos ouvir o lado mais obscuro do mestre Neige, indo buscar pontualmente alguns elementos ao seu passado mais extremo para os unir à mais recente faceta da banda. Este estilo de composição cria um ambiente dinâmico, diverso e fluido, algo já relativamente habitual neste projecto, mas executado com particular mestria neste último lançamento. No entanto, Kodama vai além de tudo isso – mais do que extremamente diverso, possui também uma identidade muito própria e distinguível do resto da discografia da banda, sendo, na minha opinião, um dos melhores registos dos Alcest, nesta fase já bem afastada dos primórios black metal da banda. Boa sorte em conseguirem tirar a faixa-título da cabeça!

Dark Tranquillity – Atoma

Este é sem dúvida um dos melhores lançamentos da história deste colectivo co-fundador da vertente mais melódica do metal extremo. Nele conseguimos ouvir um pouco de todas as diferentes vertentes da banda, desde os riffs mais mid-tempo acompanhados pelos vocais limpos de Mikael Stanne, até as típicas músicas de death metal melódico às quais estes gigantes já nos habituaram, com o mesmo peso e rapidez de grandes clássicos como Focus Shift e Lost to Apathy. Apesar desta obra não ser propriamente um ponto de viragem no historial da banda, possuindo maioritariamente elementos típicos da carreira dos Dark Tranquillity, é possível ouvir um pequeníssimo grau de experimentação com áreas musicais que se situam fora da habitual zona de conforto da banda, que acaba por ser bem-vindo mas sem chegar a ser um ponto de grande destaque no álbum, visto que o leque de sonoridades com o qual a banda trabalha normalmente ainda tem imenso por explorar, e a genialidade de Atoma é a prova disso. Grande destaque para a música We Are Faithless by Default, uma lição sobre como dizer mal da religião com classe – um talento que até hoje ainda me escapa.

In Flames – Battles

Os In Flames mudaram, e aparentemente a mudança veio para ficar. Ao contrário de muitos fãs deste colectivo, eu adorei o primeiro registo desta sua faceta mais comercial, denominado Sounds Of A Playground Fading, sendo que o considero um dos melhores álbuns da banda. É preciso ter alguma capacidade de encaixe e plasticidade mental para encarar com bons olhos o facto dos titãs do death metal melódico terem abandonado as sonoridades mais pesadas em detrimento de uma composição mais ligada ao rock e ao metalcore, e é só e apenas através desta lente que um fã de In Flames consegue analisar esta obra com ouvidos imparciais. Verdade seja dita, eu não estava à espera de grande coisa depois de literalmente ter adormecido enquanto ouvia o álbum anterior, no entanto, este Battles rebentou com todas as fracas barreiras que eu apelidei de expectativas. Em primeiro lugar, todas as músicas têm uma identidade muito forte, sendo que este não é um daqueles álbuns onde ouvimos repetidamente a mesma música com pequenas variações – essa praga tão comum e antiga no género musical apelidado de metal. Fora isso, agradou-me bastante a ligeiramente maior aposta nos guturais, com como a ambiência musical globalmente mais reminiscente aos tempos anteriores ao Sounds Of A Playground Fading, maravilhosamente fundida com elementos que poderiam facilmente fazer parte da discografia de bandas mais mainstream. É notório que álbum possui músicas e arranjos orientados para o pop, mas eu sou da opinião que soam bastante bem, até porque me recuso terminantemente a subscrever ao movimento anti-pop que se vive no seio do metal moderno.

Borknagar – Winter Thrice

De uma diversidade e originalidade invejáveis, mesmo para os padrões habituais de Borknagar, foi esta a obra que conseguiu destronar o Urd, o meu anterior álbum favorito deste colectivo musical. Mais do que um simples álbum, é uma viagem musical de proporções épicas, e sem dúvida uma das jóias da coroa desta última volta em torno do sol. Tudo soa épico no Winter Thrice, possuindo um grande leque de melodias altamente orelhudas e partes que decerto irão pôr o público a cantar desalmadamente nos concertos ao vivo. Este álbum visita muitas vertentes sonoras distintas: tem partes mais e menos progressivas, sonoridades mais atmosféricas, partes pesadas intercaladas partes secções altamente melódicas, tem gutural, tem vocais limpos, elementos de folk, death metal melódico, black metal, etc. Tudo isto vem extremamente bem construído e embrulhado naquele feeling que pertence apenas aos Borknagar, aquilo que se define como a essência da sua identidade musical. Resumidamente, é uma obra gigante que mistura várias vertentes musicais com uma mestria invejável, que devia ser ouvido por todos os apreciadores de música.

É basicamente isto! Desejo que aproveitem estas férias do mundo real para encherem simultaneamente a barriga e a alma com essas duas coisas tão essenciais à vida como o próprio ar que respiramos: comida e arte. Até 2017!

 

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