A fotografia como imagem da música

Quando a fotografia surgiu, em finais do século XIX, foi imediatamente compreendida como uma técnica que comportava qualidades representativas superiores à pintura, que vinha sendo vista como o meio ideal para retratar a realidade, havia vários séculos.

A técnica fotográfica começou, então, a ocupar o lugar de espelho da realidade no imaginário popular, até que as mudanças no pensamento artístico e social do início do século XX começaram a pôr em questão a suposta imparcialidade e transparência do medium, algo que, por sua vez, foi permitindo à fotografia metamorfosear-se numa forma de arte de seu próprio direito.

Apesar da mudança de paradigma, a fotografia nunca conseguiu libertar-se por inteiro da expectativa que nela se deposita de representar uma determinada realidade e de, por algum modo, espelhar aquilo a que se refere.

Desde cedo que a fotografia teve uma relação muito particular com a música e, mais concretamente, com as capas de discos, usadas para promover o artista (ou banda) autor(es) da obra musical. Os primeiros exemplos remontam a 1938 quando, pela mão da editora Columbia Records, as capas dos discos deixaram de consistir em folhas brancas que continham apenas os dados informativos da peça, e passaram a incluir cores e fotografias. O seu objectivo primordial: representar os artistas em questão, combinando a sua parecença física com um cenário adequado ao som praticado.

Com o avançar dos tempos, começaram a surgir capas que continham imagens fotográficas não das pessoas cuja música procuravam representar mas sim de outros tipos: paisagens, objectos, figuras humanas que representavam certas situações, ou até mesmo retratos cujos modelos nada tinham a ver com os músicos. Isto veio oferecer mais alternativas para a tentativa de representação do som contido no vinil, cassete ou CD em questão.

Eis que entra em cena o lado mais obscuro e alternativo da música, que sempre foi um campo onde estas diferentes expressões fotográficas foram sendo exploradas, com o intuito de oferecer à obra uma dimensão visual que pudesse causar tanto impacto quanto o som, que era percepcionado, em regra, como o elemento mais importante do pacote.

Sendo simultaneamente músico e artista visual, as capas de álbuns são algo que estudo frequentemente, sendo que as mesmas se tornam em referências que me influenciam profundamente na criação das minhas próprias capas, bem como outros trabalhos. De facto, estas têm uma importância grande no produto final; e o recurso à fotografia permite muitas vezes fazer uma aproximação aos universos sonoro e lírico das obras. Como não pensar no esgar diabólico de Fenriz quando escuto um dos mais icónicos álbuns de black metal de sempre, na forma de «Transilvanian Hunger», dos Darkthrone, ou a expressão vidrada e macabra na face da artista avant-garde Diamanda Galás, na capa do seu álbum «The Divine Punishment»?

Oferecendo mais alguns exemplos pertencentes a este campo de fotografias em que são representados os reais membros das bandas e/ou artistas a solo, o caso do álbum «Sehnsucht», da banda de metal industrial Rammstein é particularmente interessante. Ao longo do booklet do disco estão presentes seis capas distintas: uma para cada um dos membros. A visão desconcertante do artista austríaco Gottfried Helnvein (que no passado já havia colaborado com os também alemães Scorpions, no álbum «Blackout») é também icónica: este colocou objectos de cozinha, como garfos e colheres, na cara dos músicos, fotografando-os posteriormente em fundo negro. Esta estética acabou por fazer perfeito par com o som forte e mecânico praticado pelos germânicos, assim como com as letras enigmáticas, irónicas e repletas de sous-entendus, vindas directamente da complexa mente do cantor Till Lindemann.

Um outro caso de interesse é o de um músico controverso, que fez da própria imagem o centro de todas as capas dos seus trabalhos – a figura esbranquiçada e captada em dupla exposição, na capa do recente «The Pale Emperor», capta Marilyn Manson numa altura da sua carreira onde o norte-americano se encontra em transição entre a personagem cáustica e chocante que “viveu” na maior parte das últimas duas décadas, e um artista mais calmo e maduro, tanto a nível lírico como na respectiva palete sónica.

Finalmente, uma referência para aquela que foi talvez a maior influência visual para a capa do álbum «Storm Alive», do meu projecto A Constant Storm: o projecto alemão de darkwave Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows, do qual sou, conhecidamente, particular admirador. No álbum «Dead Lovers’ Sarabande (Face One)», a personagem misteriosa que é Anna-Varney Cantodea multiplica-se por cinco corpos: quatro que, com expressões torturadas e retorcidas, choram a morte da quinta personagem, que está deitada num caixão aberto, em fundo negro. Esta capa representa perfeitamente o som sombrio, ainda que elegante, e as letras que poetizam incessantemente a dor e a morte, temas recorrentes em toda a discografia de Sopor.

No tocante ao uso de modelos externos, o artista Hugh Syme criou uma das mais icónicas capas de metal de sempre, para a banda Nevermore, e seu álbum «This Godless Endeavor». Na capa, a imagem de uma menina, que não terá mais de 10 anos de idade, presente em frente a uma paisagem desolada, com caveiras empaladas em paus afiados, e fitando agressivamente a câmara, reflecte na perfeição as temáticas niilistas que se aliam ao som pesado e arrastado daquele que é um dos álbuns de metal mais impactantes dos anos 2000.

Um caso curioso é o do trabalho «Catastrophe Ballet», dos Christian Death, histórico grupo americano de deathrock. Esta capa, da autoria de Serge Burner, foi encomendada pela banda mas só foi visualizada pelos seus integrantes aquando da impressão de todos os layouts do álbum. Coincidência ou não, o corpo coberto de tinta branca, e transformado num manequim bizarro com a forma da modelo anónima que está presente na fotografia, casou em excelência com o flair negro e teatral do malogrado Rozz Williams, bem como os temas surrealistas/dadaístas e a sonoridade elegante e pulsante dos temas.

Referência também para os irlandeses Altar Of Plagues e a capa do seu álbum final – «Teethed, Glory & Injury». De modo sintomático, esta capa representa uma outra grande influência para a capa do meu «Storm Alive». Na verdade, é uma imagem bastante forte, sobretudo pela estranheza da pose, onde o corpo torcido e em tensão da bailarina reflecte o som monolítico e dissonante do trio de black metal.

E ainda outra referência, para uma capa que utiliza a imagem de uma pessoa que não o próprio artista, mas que não foi feita em exclusivo para o álbum, tratando-se portanto de uma apropriação fotográfica – falo da fotografia que Hans Olde fez do filósofo alemão Friedrich Nietzsche após o seu esgotamento, e que foi utilizada, em modo invertido, pelo norueguês Ihsahn na capa do seu álbum «Eremita». Neste álbum conceptual, que explora temas tratados pelo filósofo, a ligação com a imagem é natural e bastante directa.

Em respeito ao uso de paisagem, destaco as capas dos álbuns «Mass V», da banda belga de sludge metal Amenra, e «Teignmouth», do projecto de darkwave Love Is Colder Than Death. No primeiro caso, a gruta fotografada em película B&W, com o grão pronunciado e bem visível, oferece um belo quadro à natureza crua e agressiva das faixas, ao passo que, no segundo exemplo, a montanha fotografada em sépia providencia o setting perfeito para a mistura de sons etéreos e sintetizados do projecto alemão. A capa de «Teignmouth» também teve influência no artwork do «Storm Alive», ainda que a imagem em questão esteja algo escondida no mesmo…

Na fotografia de objectos, a capa do álbum «Climax», da banda de goth rock Beastmilk (entretanto renomeada Grave Pleasures) parece-me um exemplo perfeito da ideia de perversidade, quase naïf, que certos objectos podem sugerir. A caveira, cinzenta e quebrada, bem como o leite que transborda do copo, aliados ao título do álbum, pintam uma imagem interessante, sarcástica e extremamente sexual, que complementa o som seco e pós-apocalíptico deste trabalho do colectivo finlandês.

Para último deixo o exemplo daquela que é seguramente uma das minhas capas favoritas de sempre, e que representa a possibilidade de apropriação de imagens de construcções físicas, sendo elas casas, prédios, esculturas ou monumentos – falo da capa do álbum «Within The Realm Of A Dying Sun», dos Dead Can Dance, que consiste numa fotografia do mausoléu familiar do químico e político francês do século XIX, François Vincent-Raspail, que se encontra no cemitério de Père-Lachaise, em Paris. Esta torre imponente tem de lado a escultura de uma personagem coberta por um grande pano, e que pousa a sua mão numa das frinchas do topo, algo que tem tanto de belo como de profundamente mórbido. Esta imagem de tirar o fôlego combina, na perfeição, com as músicas deste disco, que são tão etéreas quanto depressivas.

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