Exercício de futilidade: uma dissertação sobre o avanço das eras

No ano de Nosso Senhor de 1984, o heavy metal estava em alta. Surgiu o primeiro grande boom de bandas e o género passava por uma fase de popularidade e prosperidade nunca antes vista. As grandes editoras começaram a contratar bandas, que eram cada vez mais a chegar aos tops de vendas e a esgotar salas de concertos. Até a MTV dedicava uma parcela significativa da sua programação à música pesada, sinalizando o que todos já sabiam: o heavy metal tinha realmente chegado ao mainstream.

a verdade é que as coisas mudaram; para melhor ou para pior, dependendo da opinião de cada um.

Muitas eras se passaram desde então, e hoje em dia tudo mudou. Surgiram novos meios de compra/venda de música, e surgiram dezenas de subgéneros novos. Segundo as beatas da altura, esse género de “drogados e bandidos” que era o heavy metal (agora apelidado apenas de “metal” pelas camadas mais jovens, das quais faço parte) diversificou-se, com novas formas de tocar e novas formas de ouvir os actuais drogados e bandidos que por acaso também fazem música. Darwin descobriu que a adaptação é a chave do sucesso, e é precisamente disso que quero escrever neste artigo: adaptação.

É um cliché ouvir fãs do género, das mais variadas faixas etárias, com aquele discurso de “antigamente é que era”. Uma análise demasiado completa das vantagens e desvantagens do passado face ao presente – além de dar matéria para um livro ou mais – seria o que eu considero um exercício de futilidade, pelo menos até alguém inventar uma máquina do tempo. No entanto, a verdade é que as coisas mudaram; para melhor ou para pior, dependendo da opinião de cada um. Na minha modesta opinião, não se perdeu muita coisa, e antes que me sacrifiquem ao Belzebu como o traidor que sou, permitam-me apenas fundamentar esta alegação com alguns factos, sendo que depois disso podem levar-me para o centro da aldeia e queimar-me na fogueira.

O Som

Hoje em dia, entre os trezentos e cinquenta mil subgéneros e sub-subgéneros de metal que existem, é possível encontrar centenas de bandas que o fazem “à moda antiga”, sejam bandas realmente antigas (Iron Maiden, Darkthrone, Obituary, Venom, Destruction, etc.) ou bandas relativamente recentes (Evile, Bloodbath, Airbourne, etc). Falando de casos mais próximos de casa, em Portugal temos imensas bandas de heavy, thrash, black e death metal tradicional, como Attick Demons, Pitch Black, Morte Incandescente e Dementia 13, respectivamente, entre muitos outros. São bandas que optam por usar a sua liberdade criativa para se expressarem de maneira semelhante a bandas da velha guarda, e na minha opinião fazem-no bastante bem. Também é possível ver bandas de músicos mais novos com esse mesmo mindset (Midnight Priest, Mindtaker, etc.), o que por sua vez garante que o mesmo sobreviva quando as bandas mais antigas cessarem de exercer funções.

muitos ouvintes de música não sabem distinguir gosto pessoal de qualidade, sendo esta a base de muitas mentalidades retrógradas.

É igualmente possível encontrar bandas de quase todos os subgéneros de metal em Portugal, fazendo com que falte tudo menos diversidade. A não ser que os queixosos queiram obrigar toda a gente a ouvir o que eles ouvem, não há aqui motivo para desilusões, visto que a diversidade é para ser, acima de tudo, celebrada. Infelizmente, muitos ouvintes de música não sabem distinguir gosto pessoal de qualidade, sendo esta a base de muitas mentalidades retrógradas. Para mim, má música só se faz fora de tom e/ou fora de tempo, sendo que o resto é absolutamente subjectivo.

Deafheaven & Abbath
Abbath e Deafheaven, em amena cavaqueira (in metalsnob.net)

O Formato

O vinil está bem de saúde, apesar de tecnicamente não ser tão fiel à reprodução da mistura final quando comparado a CD. Hoje em dia, a informação que se insere num CD e num vinil tem a mesma fonte – digital, em formato WAV – , sendo que o CD funciona à base de informação digital (Mp3 320 kbps). Não há perda de informação quando se gravam os ficheiros em CD, desde que não haja conversão para outro tipo de ficheiro, apesar de ocorrer uma perda marginal de informação na conversão de WAV para MP3 320 kbps. No entanto, há muito mais perda de informação na passagem de ficheiros WAV para formatos analógicos (como o vinil), entre outros factores incómodos que podem incomodar os audiófilos mais ferrenhos, como por exemplo:

  • A agulha nunca é 100% precisa. Num vinil impresso, cada sulco é uma fonte de informação sonora, e a única maneira de a obter é quando a agulha passa devidamente por esse sulco, algo que nunca acontece completamente, mesmo nos leitores de vinil mais caros;
  • O vinil é difícil de armazenar, tanto pelo seu tamanho como pelo facto de ter de ser guardado completamente direito num quarto com temperatura ambiente, para evitar que se deteriore;
  • Se um álbum tiver mais de aproximadamente 40 minutos, é inevitável que haja um grau de compressão relativamente grande nas músicas situadas mais perto do centro do vinil, fazendo com que se percam imensos pormenores sonoros. Mesmo que o álbum não dure mais do que aproximadamente 40 minutos, há sempre um pequeno grau de compressão, nunca sendo fiel ao que saiu do estúdio. Estes defeitos podem ser minimizados com leitores de vinil caríssimos da mais alta qualidade, que por sua vez têm uma performance pior do que ouvir um MP3 320 kbps num iPod com 10 anos;
  • Os “cracks”, “pops” e ambiência geral que se ouve num vinil – algo que os puristas e hipsters apelidam de “som puro” – são distorções harmónicas criadas pelo formato em si, ou então será a agulha a passar por partículas de pó e riscos. Em 99% dos casos, não é isso que o produtor do álbum quer que vocês ouçam (há malucos para tudo).

Na realidade, a maneira de ouvir o som mais fiel possível ao que foi feito em estúdio é comprando os álbuns digitalmente, porque assim recebemos os ficheiros em formato WAV, dado que a perda de informação é, essencialmente, zero. Apesar de tudo isto, as vendas de vinil a nível mundial estão a aumentar bastante desde 2007 e só em 2014 aumentaram 38%. Isto é óptimo, porque apesar de tudo, cada um consome música como quer. Há, portanto, um grande número de coleccionadores a comprar neste formato, apesar de ser mais caro e menos manuseável, além dos defeitos mencionados acima. Contra todo o bom-senso, ainda existem bandas que fazem edições especiais em cassete – o pior formato alguma vez inventado no que toca a audição de música. Tendo em conta que a fita é altamente inflamável, temos aqui um serviço actual que preenche os gostos de todos os interessados, sejam eles saudosistas do old-school ou simples piromaníacos.

A rede de informação e distribuição

A era das zines em papel praticamente acabou, para o agrado dos ambientalistas e desagrado do old-school. Vivemos na era dos websites e temos alguns bastante bons, como a Metal Imperium, a Rock N’ Heavy, e inclusive o site onde este artigo se encontra. No entanto, apesar da era do papel ter maioritariamente findado, ainda corre muita tinta associada ao metal no nosso país! Desde a Ode Lusitana até revistas como a LOUD! e a Ultraje, num país pequeno como o nosso ainda existem fanzines e revistas dedicadas exclusivamente ao metal. Quem prefere ler online pode fazê-lo (como estão a fazer agora), e quem prefere ler em papel – exactamente como se fazia com as zines amadoras de outrora – também pode fazê-lo. Concordo que as opções para quem quer ler em papel não são muitas, talvez porque a internet permite que se façam blogs e webzines de borla, possibilitanto que os escritores e editores façam o seu trabalho sem terem de pagar do próprio bolso. É simplesmente mais prático e mais fácil; no entanto, quem deseja mais fanzines à antiga pode sempre fazer uma. É a beleza da cultura DIY que a subcultura metal herdou do punk rock.

é mais fácil ouvir música hoje em dia e descobrir novas bandas. Isto é indiscutível e é algo pelo qual devíamos estar gratos enquanto fãs. Não há saudosismo suficiente no universo que consiga ocultar esse facto.

O tape trading, obviamente, também foi à vida. Hoje em dia, a música é extremamente mais acessível, inclusive por vontade dos próprios músicos, como esforço de adaptação à prática de pirataria. No entanto, nas minhas conversas com membros da velha guarda, vim a descobrir que o tape trading existia principalmente por necessidade. Uma necessidade que hoje não se verifica, visto que a música está à distância de um clique, sendo ouvida de modo legal ou até ilegalmente. Não me vou alongar mais no assunto da pirataria, visto que é uma questão multifacetada que exige um grande esforço de adaptação e mudanças por parte das editoras, dos músicos e dos ouvintes. Mas digamos que, na minha opinião, a partilha livre de informação tem aspectos muito positivos e outros extremamente negativos, e ficamos por aqui.

No que toca ao saudosismo pela troca de vinis ou cassetes, meus amigos, ninguém vos impede de fazerem isso hoje em dia. Eu cresci com a partilha de ficheiros online e no entanto já troquei CD’s. Uma vez troquei um CD dos Moonshade por um álbum de Lux Ferre num concerto em que abrimos para eles, um gesto puramente simbólico e feito com todo o gosto! Aproveito para relembrar os Lux Ferre que não aceitamos devoluções, lamento que tenham ficado a perder. Vendo as coisas de um panorama geral, é mais fácil ouvir música hoje em dia e descobrir novas bandas. Isto é indiscutível e é algo pelo qual devíamos estar gratos enquanto fãs. Não há saudosismo suficiente no universo que consiga ocultar esse facto.

O público

Já sei: hoje em dia o ambiente não é o mesmo, antes era festa, agora é só telemóveis no ar, perdeu-se muito do ambiente, etc. A verdade é que eu também odeio ver parolos de telemóvel no ar a gravarem um vídeo horrível que vão ver uma vez, pôr no Youtube e esquecerem-se que existe – tudo isto à custa de taparem a visão dos pobres coitados que estavam atrás deles nesse concerto. Vou ter de fazer de advogado do diabo, encarnando um metaleiro trve com o intuito de vos reportar que existem fotógrafos no pit por uma razão: eles estão lá para tirar fotos e vídeos de qualidade com máquinas decentes, para que vocês possam apreciar o espectáculo em paz (e deixarem os outros fazer o mesmo).

é normal ter saudades e recordar, mas não é aconselhável viver preso ao passado.

No entanto, vivemos num país livre, nada contra sacarem do telemóvel e tirarem uma foto para recordação; mas por favor não passem músicas inteiras a bloquear a visão das pessoas. Relativamente aos que fazem isso com tablets, desejo-vos cancro ósseo, só para que saibam. Independentemente do dispositivo que usam, aqueles que desejam gravar um vídeo ou tirar fotos para simples recordação têm a obrigação de arranjar maneira de não incomodar o próximo, ou então enfiarem o dito dispositivo num sítio do seu corpo onde o sol não brilha.

Quanto ao ambiente geral não ser o mesmo, é impossível que seja. As pessoas são outras, as bandas são outras, os locais de concertos são outros, o que nos leva ao ponto inicial: é normal ter saudades e recordar, mas não é aconselhável viver preso ao passado. Há uma miríade de músicas novas a descobrir e novas experiências a serem tidas que só podem ser vividas nesta altura, porque a arte está em constante mutação. Daqui a trinta anos, tudo estará diferente, sendo que eu espero estar vivo e bem de saúde para ver e ouvir o que o futuro nos reserva, ouvindo os sons da minha juventude enquanto descubro e aprecio (ou não) novas sonoridades.

Nada é eterno, e no caso da música, ou nos adaptamos, ou perdemos a oportunidade de apreciar bandas, álbuns e concertos espectaculares, que por sua vez são as coisas mais valiosas para qualquer ouvinte de música.


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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