“Maior” significará “melhor”? No caso do Resurrection Fest, pode dizer-se que sim. Não dá para ver tudo, tenta viver-se (beber-se?) tudo, e no fim, ficamos com um sentimento paradoxal – mesmo de barriga cheia, ficamos com fome de mais. Esta é a crónica de um dos melhores festivais espanhóis, pela ótica turva de um festivaleiro.

Antes de tudo, a viagem. Um gajo não fecha os olhos em Portugal e volta a abri-los em Viveiro, bem no noroeste espanhol. Este cronista foi mais um entre 55 metalheads que se juntaram à excursão da Luta Sistemática e que passou por Lisboa, Coimbra e Porto, rumo a Espanha. Estas viagens parecem sempre eternas, mas eventualmente lá chegámos… às cinco da matina. Quem queria ficar no Resucamp (o camping “chique” do festival, mas ainda abaixo do Glamping), teve de esperar mais umas boas seis horinhas até entrar. Sem drama – acampámos fora, antes de acamparmos lá dentro. Tuga style!

Dia 0: “Sepultura do Brasiu!”

Credenciais trocadas, pulseiras enfiadas, tendas montadas. O que falta? Concertos? Sim, mas também faltava o fuel que faz uma pessoa aguentar quatro dias de concertos: álcool. E comida, vá. A experiência recomenda manter o orçamento mais apertado que botas da tropa, e o grupo seguiu para o hipermercado local. Havia cerveja portuguesa (yey!), mas a estrangeira estava mais barata. Não divulgamos nomes, porque a Super Bock e a Carlsberg não nos pagam para isso. A cerveja não arrefece sozinha, pelo que a viagem de regresso ao camping incluiu rasgar todos os tendões e músculos dos braços a acartar gelo e cerveja. Um ritual que se repetiu todos. Os. Dias.

Andreas Kisser dos Sepultura – foto de Javier Bragado

Uma vez no recinto (ainda parcialmente fechado), os espanhóis Aphonnic já estão a dar o seu espetáculo, ainda com o público a responder a meio-gás. No poupar é que está o ganho. Reação diferente obtiveram os We Ride, um quarteto de hardcore de Vigo liderado por Mimi. A julgar pelo tamanho do backdrop, não se estarão a dar nada mal. Numa visita rápida ao campismo, dá para ver que há imensa gente que ainda nem chegou a entrar no (meio) recinto – que, mesmo assim, já estava bastante composto quando CJ Ramone revisitou “I Wanna Be Sedated” perante um público extremamente satisfeito. Ainda em referência à parte aberta ao público neste dia de apresentação do festival, diga-se que a zona de restauração continua sensivelmente com a mesma dimensão em relação aos anos anteriores, sem problemas de logística, excepto na quantidade de mesas disponíveis para os festivaleiros comerem sentados.

Chegamos ao prato principal, Sepultura. A apresentarem o novo álbum “Machine Messiah”, parece que a banda de Andreas e Paulo Jr. ainda encontra um enorme atrito em relação ao período pós-Max. Derrick Green já está na banda há mais tempo que o lendário Cavalera, mas esta resistência é inegável. Ainda assim, os novos temas foram tocados e cantados de forma impecável, com o monstruoso Eloy Casagrande a carregar a banda para a frente com uma pujança irrepreensível. O moshpit esteve sempre ocupadíssimo, mas pior ficou quando a banda desenvolve a setlist para os temas mais antigos. Algumas coisas nunca irão mudar, mas deixar a “Arise” de fora da setlist é sempre estranho. Hora de voltar para a tenda, conviver com a malta e fazer queixinhas acerca desse facto. Constante durante todo o festival: cheiro a erva. Qual é o mal?

Dia 1: “Dave Lombardo com Suicidal? Sim!”

Não chove; ‘tá-se bem! Em 2014, a chuva provocou alta inundação no camping e em algumas partes do recinto (metal market incluído). Por isso, não seria de estranhar que alguma facção mais old-school dos visitantes temesse novo dilúvio. Nada, nicles – perfeito. O Resurrection Fest começa “a sério”, finalmente.

No novíssimo Desert Stage (o festival passou a ter quatro palcos, mais um que nos anos anteriores), os espanhóis Blaze Out davam um espetáculo extremamente competente, com uma presença em palco muito boa e uma ótima interação com o público. A recente atuação no Download fez-lhes bem.

Suicidal Tendencies – foto de Toni Villen

No mesmo palco, os El Altar Del Holocausto surpreenderam tanto pelo visual (tapados da cabeça aos pés por uma espécie de túnicas brancas) como pela sonoridade, um doom instrumental que teve uma boa reacção por parte do público. De seguida, acompanhámos a atuação avassaladora dos Benighted. Credo, que descarga de porrada e energia que o público do Chaos Stage presenciou, por parte destes franceses. O baterista era um espetáculo por si só, as guitarras estavam no ponto e o vocalista esteve incansável, a ocupar o palco todo. Momento alto da atuação: Trevor Strnad, de The Black Dahlia Murder, juntou-se para um dueto memorável em “Forgive Me Father”.

Deve ser duro ser comparado a toda a hora com os AC/DC, mas os australianos Airbourne não se devem importar muito com isso; pelo contrário. A quantidade absurda de colunas de guitarra alinhadas em palco (muito provavelmente, só para o cenário… e resultou), os backdrops massivos em rotação durante a atuação… estava lá tudo. Tudo… incluindo as músicas. A sensação de rock ’n roll “larger than life” ficou bem impressa na mente de quem presenciou o show. Isto inclui a memória dos Resukids, que é uma iniciativa do festival que leva crianças ao palco (devidamente acompanhadas e protegidas), para sentirem o rock, de perto. Lindo. Que tribo impecável somos.

Dave Lombardo – foto oficial por Resurrection Fest

Quando chegou a hora de assistir ao show Suicidal Tendencies, a expectativa era enorme. Ver o grande Dave Lombardo a tocar com (mais) uma banda lendária não é uma sensação negligenciável. A energia de Muir foi contagiante, sempre a correr dum lado ao outro do palco, ou a dar murros no ar… “I Shot The Devil”, “Possessed to Skate”, “Trip at the Brain” e “War Inside My Head” foram muitos dos hinos que foram debitados pela malta da banda que começou em Venice Beach. “Get back up when you fall”, apelou Muir ao lançar “Possessed to Skate”. Ficou tudo louco.

Trevor Strnad de The Black Dahlia Murder – foto oficial por Resurrection Fest

The Black Dahlia Murder apresentavam-se com o cenário do último álbum “Abysmal” (já de 2015), e a multidão junto do Chaos Stage já era assinalável. Como peixes na água, a banda de Trevor Strnad esteve irrepreensível. Com Brandon Ellis na guitarra (também de Arsis e Cannabis Corpse), a secção de leads e solos esteve muito bem entregue. O jovem parece um Zakk Wylde em início de carreira, sem barba e sem abusar ridiculamente de falsos harmónicos. O vocalista tanto gesticulava como um maestro, ora dançava como uma bailarina, mas na verdade estava era a divertir-se à brava. Ainda tentaram invocar um circle pit (já começa a parecer fétiche) à volta da mesa de som, mas não deu. Valeu pela ideia.

Joey Belladonna (Anthrax) – foto oficial por Resurrection Fest

Quando chega a vez de Anthrax, dá para se sentir alguma ansiedade no ar, na zona do palco principal. Afinal de contas, não deixa de ser uma banda dos denominados Big Four. Os representantes do thrash de Nova Iorque. O stomp do Scott Ian. A guedelha do Joey Belladonna. A energia de Frank Bello. Sem Charlie Benante, porém. Azar; o espetáculo esteve à altura das expectativas, com o vocalista a ter uma prestação absolutamente irrepreensível, sem que os anos passem pelas cordas vocais. Sem que as corridinhas de um lado ao outro do palco lhe atrapalhassem a respiração. “Among The Living”, “Caught In The Mosh” “Got The Time”, “Madhouse”… deu para tudo.

Regressados ao campismo, ninguém dorme até de manhã. Dá para sossegar um pouco, mas há sempre gente a andar de um lado para o outro, mas a malta é pacífica e até é possível dormir com relativo descanso.

Dia 2: O prato principal é fogo que vem da Alemanha

Começamos o dia com a atuação dos compatriotas Holocausto Canibal num Palco Ritual que ainda começava a reunir os primeiros metaleiros do dia. À habitual prestação de violência juntou-se o vocalista de Legacy of Brutality para uma rendição de “Zombie Apocalypse” dos Mortician. Bom de se ver.

Continuando o acompanhamento às bandas nacionais que frequentaram os palcos do Resurrection, os Reality Slap tiveram uma prestação impecável e que finalmente ergueu o patamar do Palco Ritual para um nível que não voltaria a amenizar. Circle pits, moshada à kung-fu e enorme interação do vocalista com o público. Excelente representação do nosso hardcore, em Espanha.

Rammstein – Toni Villen

Entre concertos, pode dizer-se que um festivaleiro gasta mais dinheiro em tokens (senhas para bebida e copos) do que desejaria, mas a onda de euforia inebriada atravessa o espírito e o facto de se poder pagar com cartão também não ajuda às poupanças. No poupar é que está o ganho, mas… not today!

Mesmo sem tocarem “Alison Hell”, os Annihilator de Jeff Waters deram um espetáculo que terá agradado à maioria do público presente no palco principal. A plateia estava muito bem composta e o canadiano cumpriu na perfeição o papel de vocalista… outra vez. Ainda assim, fica a sensação que a musicalidade da banda anda um pouco na terra-de-ninguém, entre um thrash acutilante e um rock algo infoensivo e demasiado meloso. Prefiro a selvajaria do thrash!

Os espanhóis Vita Imana davam cartas com o seu metal tribal no Chaos Stage, mas o que realmente ficaria na retina seriam os miúdos do Resukids acompanhados por personagens de Star Wars, em palco. Mais um momento feelgood deste festival.

Chegava a hora de apanhar Warbringer a darem tudo no Chaos Stage. Com um novo álbum no bolso, “Woe to the Vanquished”, o vocalista John Kevill tratou de atualizar o line-up da banda, aproveitando membros antigos e amigos da banda para fazer um conjunto coeso e uma verdadeira máquina de thrashar. Sempre teatral na sua pose, mas com uma dedicação e entrega extremas, Kevill comandou as tropas para uma guerra total – ironicamente, não tocaram a “Total War”. Pena.

A noite caíra e foi difícil optar entre Deez Nuts e Lost Society, pelo que começámos pelos finlandeses, que estão permanentemente ligados às pilhas. Apesar de ser um apreciador inveterado de thrash, o facto do vocalista de Deez Nuts ter ficado de fora deste concerto fez-me optar por ir até ao Palco Ritual apanhar um alinhamento de banda completamente diferente. Seria o guitarrista Matt Rogers a assumir a voz principal, e safou-se muito bem – com o apoio incondicional do público, pode dizer-se que se fez um pouco de história para a banda e para o festival.

Rammstein – Javier Bragado

Os muitos camiões de Rammstein já tinham chegado uns dias antes para a mega-produção que seria a jóia da coroa desta edição do Resu. Quando chegou a hora dos alemães fazerem a sua parte, nada falhou. Um palco massivo com uma decoração à altura. Fogo. Foguetes. Uma pessoa a ser escarrada enquanto é pontapeada para uma banheira? Check. Tudo é massivo, neste teatro alemão de alta qualidade, e resta falar do som. Tecnicamente irrepreensível, cristalino e – repita-se – massivo. Um concerto de Rammstein é um happening que deixa marca a quem só o assiste de vez em quando.

Ainda haveria tempo para os Animals as Leaders fecharem o Desert Stage com a sua técnica musical sem par. Uns djentlemen (desculpem, tinha de ser). Ainda deixaram o reparo de que teria sido o concerto mais tarde que já teriam dado e nós acreditámos. O corpo já acusava três dias de farra.

Dia 3: O brilho de Mastodon

Para este último dia estavam reservadas as atuações de Revolution Within e Besta, duas bandas portuguesas que voltaram a deixar uma excelente impressão em território galego. Se os primeiros não tiveram a afluência de povo que mereciam ter tido, no Desert Stage, já os Besta tiveram uma audiência mais composta.

Os Arch Enemy também trouxeram o seu fogo para o palco, mas depois da noite anterior, parecia que estavam a acender fósforos, por comparação. A banda de Alissa White-Gluz passou por todos os temas clássicos da banda, mas à vocalista continua parecer faltar “aquilo” que Angela Gossow tinha. Provavelmente, até poderemos estar a falar do simples efeito novidade, que pesa, mas a atuação pareceu sem força, no total. Nada a apontar em termos técnicos, mas com alguma falta de garra. Opinião pessoal a contrastar com a do público presente, que aderiu ao concerto sem quaisquer reservas.

Mastodon (ft Resukids) – foto de Javier Bragado

Nota humorística para o momento em que Mantar fizeram questão de ceder cerveja ao “Jesus Cristo” que surge na imagem de capa desta reportagem, pouco depois de caminhar sobre o público, em mais um momento mágico deste festival:

No ano passado, Mastodon teriam sido cabeças-de-cartaz, mas tiveram de cancelar a sua presença no Resurrection Fest 2016. A espera valeu a pena, porque a banda parece estar num lugar muito bom, tanto mental, como física, como (ainda) musicalmente. Sem desafinações a assinalar, em termos vocais (o maior desafio para o estilo em questão), o show foi de uma coesão tremenda. Longe vão os tempos da agressividade mais crua, e o espírito do rock-n-roll está cada vez mais presente nas composições desta banda que permite um outro tipo de apreciação aos seus concertos. “Sultan’s Curse”, “Ancient Kingdom” e “Andromeda” foram os temas da nova vaga que mostraram quão bem a sonoridade mais recente assenta na banda de Atlanta. Por outro lado, “Divinations”, “Blood and Thunder” e “Leviathan” arrasaram por completo. Impecável.

Quem vir a malta de Rancid na rua, talvez mude de passeio. Em palco, a história é outra. A alegria da sua música é verdadeiramente contagiante e deram um dos concertos mais divertidos de todas as bandas que passaram pelo palco principal. Com cerca de 25 anos desta vida, fica a sensação de estarem prontos para mais 10 ou 20, sem problemas. “Radio”, “Roots Radicals”, “Maxwell Murder”, “Nihilism”, “Last One To Die”, “Salvation”, “East Bay Night”, “Tenderloin”, “Old Friend”, “Fall Back Down”, “Time Bomb”, “Ruby Soho”… punk e ska a rodos numa setlist que ultrapassou a hora de duração e elevou o espírito a quem teve a oportunidade de ver o concerto.

Sabaton – foto por Javier Bragado

Passar de Rancid para Mayhem é aquele choque sónico que gelou os ouvidos, com “De Misteriis Dom Sathanas” a ser tocado na sua íntegra. Com um público altamente fiel a acompanhar a prestação ao vivo, fica a sensação de dever cumprido. O mesmo se pode dizer do show de Sabaton, que levou os fãs ao rubro com a sua atuação. Uma bateria instalada num tanque? You got it! “Blood of Bannockburn”, “Carolus Rex”, “Primo Victoria”, “Shiroyama” e “To Hell and Back” foram temas que não ficaram de parte da atuação destes suecos.

Obituary encerraram as hostilidades do Chaos Stage com uma atuação devastadora (apesar de um pouco escura) e o Resurrection chegava ao fim – pelo menos, para nós. Fica a sensação de assistirmos continuamente a um festival que não se inibe de crescer, mas que não o faz a qualquer custo. Pode parecer paradoxal, mas cada passo que pareça arriscado acaba por estar assente num planeamento muito cuidado por parte de uma equipa de profissionais que acaba por criar um monstro, na pacata localidade de Viveiro. É daqueles festivais para os quais se pode comprar o bilhete às cegas, que a barrigada de boa música está assegurada. !Volveremos!

PS: regressar às 8h00 do dia seguinte foi uma tortura completamente sado-maso que nos traumatizou durante algumas semanas, daí apenas termos apresentado a crónica agora. Mil perdões, é bem provável volte a acontecer.

Crónica por Rui Alexandre

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