Quer seja alguém nos seus 40-50 anos que se lembra do choque brutal que foi o surgimento dos enormes Black Sabbath, ou um jovem que absolutamente venera os Avenged Sevenfold, os sons da nossa adolescência moldam-nos enquanto indivíduos a um nível tremendamente profundo. Eu cresci com uma quantidade exorbitante de sons distintos nos ouvidos, e uma das vozes que mais se ouvia nessa cacofonia sempre foi a entrega poderosa de Chester Charles Bennington.

Tinha uma mera década de existência aquando o findar dos anos 90. Mais ou menos por essa altura, deu-se o malfadado boom do nu-metal, onde bandas como System Of A Down, Slipknot, Mudvayne, e companhia dominavam o airplay da rádio e da MTV. Hoje em dia é fácil gozar com o nu-metal, eu próprio faço isso porque, convenhamos, olhando para trás e vendo aqueles cabelos espetados tingidos com todas as cores do arco-íris (uma cor diferente por videoclip, vá), as calças largas, enfim, toda a foleirice inerente à coisa tem piada – no mesmo sentido em que, hoje em dia, tem a sua graça ver vídeos antigos dos Iron Maiden com calças de vinil vermelho ou fotografias nada homoeróticas de Manowar. Mas, contextualizando, na altura nós vivíamos aquilo com grande intensidade. O nu-metal estava em alta e trouxe o metal de volta às bocas do mundo com um contingente massivo de bandas de som completamente inédito na altura. Uma dessas bandas foram os Linkin Park, outrora o nome mais representativo desse boom, que tão má fama tem dentro das camadas mais conservadoras da música extrema, as quais devem ser compreensivelmente ignoradas neste aspecto em particular e mais alguns que já aprofundei mais do que o suficiente em artigos anteriores.

Linkin Park ensinaram-me que misturar diferentes géneros musicais é bom e recomenda-se. Uma banda que misturou rock, metal, rap e electrónica estava no top de vendas mundial, provando que o ecletismo não é inimigo do sucesso, e que é possível berrar e mesmo assim chegar aos mais altos escalões do sucesso musical. Obviamente que, em retrospectiva, Linkin Park têm pouco ou nada de extremo quando comparados a bandas que realmente se situam no extremo da agressividade, mas de qualidade e ecletismo musical têm imenso, e eram consideravelmente mais agressivos do que a esmagadora maioria dos fenómenos musicais gigantes que os precederam. Óptimos músicos, sem medo de arriscar, lançaram álbum após álbum onde cada um tinha uma sonoridade e identidade muito próprias, com um ritmo constante de inovação que faz tudo menos deixar o mundo indiferente.

Quer fosse em Linkin Park,  Stone Temple Pilots, ou nos seus projectos paralelos, Chester Bennington era uma voz reconhecível em meros segundos

Sendo frontman, aprendi imenso ao ver Chester Bennington em performances ao vivo, quer em vídeos na infância do Youtube naqueles belíssimos 240p, quer ao vivo no concerto excelente que deram no Rock In Rio 2008. A presença, a execução excelsa, a raiva e a maneira como empatizava com o público eram essencialmente uma lição de como ser vocalista. Em entrevistas imperava a humildade e a discrição, algo que, sendo perfeitamente honesto, gostava de conseguir dominar tão bem quanto ele, apesar de ter muito mais razões para ser humilde, visto que o meu percurso musical é incrivelmente parco ao ponto de nem ser comparável. Quer fosse em Linkin Park,  Stone Temple Pilots, ou nos seus projectos paralelos, Chester Bennington era uma voz reconhecível em meros segundos – um tenor inconfundível de contornos bipolares onde em questões de segundos passava de vocais limpos incrivelmente melodiosos a berros poderosos que mesmo assim não eram completamente ausentes de melodia, e em parte deflectiam a pessoa que ele era, nomeadamente alguém que passou por muito.

Gostos pessoais à parte, há um facto inegável: Linkin Park, e muitas bandas do movimento nu-metal, fizeram imenso por dissipar preconceitos antigos, trazendo um pouco da música extrema ao mainstream e demonstrando que ouvir música agressiva não implica que sejamos más pessoas. Por essa razão, entristece-me ver certas reacções ao que aconteceu – supostos membros da comunidade que se auto-intitula de “unida” a chamar-lhe covarde, a dizer que ele merecia morrer, e que a morte dele interessa pouco porque a banda dele “nem sequer é metal”, etc. e ad nauseam. É a podridão que abordei anteriormente a demonstrar a sua cabeça feia, a mesma podridão que nos vai catapultar de volta para a idade da pedra onde seremos, de novo, insultados na rua por sermos uns drogados indigentes que ouvem a música do diabo. Entristece-me ver ex-colegas que na altura adoravam Linkin Park e outras bandas do género a cuspirem no prato onde comeram, infantilmente tentando convencer o mundo que já ouviam Burzum no ventre da mãe, enquanto os seus contemporâneos, que por sua vez testemunharam presencialmente o passado que estes tristes tentam desesperadamente esconder, assistem com incrédula pena a essas tentativas vãs e fúteis de impressionarem os trves da velha guarda contra quem se tentaram insurgir artisticamente no passado.

muitos não parecem conseguir compreender: a depressão é uma doença.

Entristece-me que não entendam os perigos da depressão. Sim, ele tinha tudo: uma boa carreira, mulher, filhos, amigos, e apesar disto tudo achou por bem apagar a luz da sua existência ao pendurar-se do tecto. Isto tem um motivo incrivelmente óbvio que, no entanto, muitos não parecem conseguir compreender: a depressão é uma doença. É, acima de tudo, uma venda semi-transparente que nos permite ver aquilo que temos e perceber que temos tudo, mas mesmo assim não conseguir evitar ver a realidade por uma lente distorcida onde não merecemos nada do que temos, incapazes de silenciar os demónios que nos sussurram ao ouvido. É sentirmo-nos estúpidos e ingratos por não conseguirmos dar valor ao que temos devido meras disfunções bioquímicas no nosso cérebro. A covardia é pouco ou nada chamada ao assunto, considerando que um doente que se mata por sofrer de depressão é tão covarde como um paciente de cancro que não resiste à luta. No entanto, o véu de sobeja ignorância da plebe não permite este tipo de pensamento, visto que envolve duas coisas que idiotas não costumam ter: conhecimento científico e noção.

Acima de tudo, entristece-me a perda de um grande artista que moldou a minha infância e ajudou-me a ultrapassar aqueles momentos mais negros que todos temos. Assim procede a imparável procissão da velha gadanha – da próxima, que leve quem não faz falta.

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Biólogo, músico e escritor freelance com a mania que sabe tudo.