A Banda Sonora Da Distopia Eminente

Hoje decidi massacrar vossas excelências com o tema mais (des)interessante de sempre: política! Especificamente, será um conjunto de reflexões relativas à relação da música pesada com o panorama político mundial, e como podemos transpor essa relação centenária para o pesadelo semi-hitleriano que decerto irá compor os anos vindouros. Para os mais desatentos, tenho todo o gosto em pôr-vos a par da situação sócio-política actual nos países de primeiro mundo: chegou o quarto Reich e vamos todos arder no sétimo círculo do Inferno, porque indubitavelmente merecemos. Ou então vão apenas ser uns anos particularmente maus, mas – visto que sou de esquerda – sinto sempre a necessidade de dramatizar. Teatralidades à parte, este mundo já não é para liberais.

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Com a ascensão de vários partidos de direita e extrema-direita na Europa, culminando com a tragicamente espectacular eleição americana de alguém que é, para todos os efeitos, um babuíno que devia mesmo mudar de cabeleireiro (ver imagem), o pensamento liberal parece estar a ser atacado de todas as frentes. Inclusive internamente, com ideologias de ensino especial como as identity politics, tão americanas como a Coca-Cola e substancialmente mais nocivas. Felizmente, a arte é um óptimo veículo que, na melhor das hipóteses, consegue realmente mudar mentalidades, e na pior das hipóteses permite-nos esquecer, por breves momentos, do facto de vivermos rodeados de parolos e idiotas.

O metal tem de possuir inspiração política?

Não necessariamente. A música não “tem” de ser nada senão aquilo que o artista quer que ela seja. No entanto, há algumas vertentes agradáveis na arte de conotação política e de consciência social, sendo que o Robb Flynn a dar uma de Zeca Afonso não é uma delas – é incrível com algumas das figuras mais tristes de certas pessoas ocorrem em épocas de sobriedade. Mas em muitos outros casos fomos brindados com clássicos musicais de inspiração política, muitos deles sendo provenientes de gigantes da música como Black Sabbath, System Of A Down, Metallica ou Sepultura. Estas e outras bandas fizeram os seus ideais serem ouvidos através da música, e quer seja a aversão à guerra do Toni Iommi ou a revolta do Max Cavalera contra a limpeza étnica dos índios no Brasil, uma grande parte dos clássicos do metal consiste num sentimento de revolta contra o poder estabelecido. Não obstante, nem tudo é positivo, e como tal – à boa maneira portuguesa -, comecemos por dissecar o que está mal.

é incrível com algumas das figuras mais tristes de certas pessoas ocorrem em épocas de sobriedade

A parte má

Ser compositor de metal, infelizmente, não confere o grau de doutor em ciências políticas ou em línguas. Isto implica que nem todo o metal dedicado a estes temas possua bom conteúdo lírico, quer seja pelas alarvidades que alguns cospem (como os meninos do NSBM, que devem pouco à inteligência), como pela simples incapacidade em escrever letras sem assassinar a língua inglesa e/ou a arte de pensar coerentemente. Dito isto, se alguém fizer questão de criar arte com inclinação política, convém que tenha a noção da influência que pode exercer sobre os ouvintes: o poder da música é imenso, sendo que uma música absolutamente genial pode contribuir activamente para influenciar os ideais de alguns ouvintes, inclusive de maneira psicossomática, numa espécie de versão metaleira do cão de Pavlov.

uma música absolutamente genial pode contribuir activamente para influenciar os ideais de alguns ouvintes

Tal implica que, dependendo do grau e inteligência e sanidade do artista, a arte que produz pode realmente surtir efeitos realmente positivos ou drasticamente negativos em certos tipos de ouvinte. Idealmente, o ouvinte também deve manter a responsabilidade de não ser intelectualmente fraco ao ponto de se deixar influenciar demasiado pela música, visto que o músico é um artista e não um life coach, e ainda bem, visto que life coach não é uma profissão a sério. Quando relativizamos a importância das letras destinadas a impor uma certa agenda, passa a ser possível aturar certas obras sem concordar com o seu conteúdo – por exemplo, eu sou um grande fã de Extol, e não é por isso que irei converter-me ao cristianismo, visto que já não tenho idade para ter amigos imaginários.

o músico é um artista e não um life coach, e ainda bem, visto que life coach não é uma profissão a sério

A parte boa

A melhor parte disto tudo é, sem dúvida, a inspiração que as situações más conferem aos artistas, na sua maioria livres pensadores com ideais a tender para o liberal. Não há nada que agrade mais ao típico compositor de metal do que “mandar foder” o estabelecimento de forma lírica ou instrumental – algo que se torna muito mais credível quando o estabelecimento merece. Talvez não seja coincidência o facto das épocas de maior boom do metal americano tenham ocorrido debaixo da asa e constante escrutínio de governos altamente conservadores, o que acaba por ser a proverbial linha de luz prateada nas nuvens negras que se avizinham. O black metal, enquanto subgénero, está bastante focado na insurgência contra o cristianismo, sendo uma parte integral da componente conceptual de centenas de bandas do género.

Talvez não seja coincidência o facto das épocas de maior boom do metal americano tenham ocorrido debaixo da asa e constante escrutínio de governos altamente conservadores

São apenas dois exemplos que apontam para a mesma conclusão: há mais metal quando há uma vertente do status quo que despolete insurgência, e este surgimento da direita pode muito bem ser a próxima chama a incendiar o mundo da música pesada. Na mesma linha de pensamento, são nestas alturas em que os músicos, com auxílio da consciência e do bom-senso, podem aproveitar para criar obras que estarão intimamente ligadas a esta altura específica da História, conferindo-lhes uma dose pesada de realismo e permitindo a transmissão de mensagens com conteúdo intelectual e valor acrescido.

A linha prateada

Concluindo, chegamos à altura ideal para a criação de metal com orientação política e/ou de consciência social, a não ser que cantem nos Machine Head. No entanto, nem todas as obras desse estilo são intelectualmente relevantes, e como tal não devemos dar demasiada importância a certos ideais só porque estão inseridos no contexto de uma música que gostamos. Só nos resta esperar que os artistas que gostamos se inspirem neste péssimo panorama sócio-político para poderem criar algumas obras que, por sua vez, permitam espelhar os nossos sentimentos relativamente à ascensão desta nova era de segregação, ódio e ignorância. Talvez assim consigamos dar uma óptima banda sonora à distopia iminente.

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