O elitismo é uma doença neurodegenerativa que possui sintomas bastante curiosos, no sentido em que os afectados caminham, comem e até falam (demais), no entanto, não aparentam ter um cérebro funcional, ajudando a tornar a comunidade de fãs de música extrema numa versão mais chata e previsível de Walking Dead.

Qual de nós não possui aquele amigo extremamente elitista que acha que sabe o que é “música a sério” quando na verdade nem sabe distinguir um de um ? Aquele amigo a quem damos o desconto devido a ele ser “simplesmente assim” e no fundo até ser boa pessoa, mas quando fala de música só dá vontade de lhe partir uma cadeira nas costas e desenhar coisas porcas na cara dele antes de chamar o INEM? Tenho boas e óptimas notícias para vocês: a boa notícia é que o vosso amigo tem cura, e a óptima notícia é o facto de ser muito mais simples arranjar um amigo novo.

Qualidade versus Gosto Pessoal

Geralmente, o melhor tratamento para o típico Zé do Tasco do heavy metal é um pouquinho de informação sobre as claras diferenças entre gosto pessoal e música de qualidade. Passo a explicar: a música de qualidade faz-se dentro do tom, dentro do ritmo e – havendo componente lírica – com letras sem erros de escrita acidentais (entenda-se, fruto da ignorância do escritor), sendo que mesmo isto é discutível até certo ponto, no entanto, são estas as regras globais da música e escrita no sentido académico.

Aconselho vivamente que larguem esse conceito de “metal é que é” e abram a mente antes de abrirem a boca e abandonem essas noções completamente arbitrárias para definir o que é ou não é metal. Não interessa se é metal, é música.

Dentro dessas três regras, tudo é bom, e o facto de alguém gostar ou não simplesmente depende do gosto pessoal do indivíduo. Cada ouvinte possui padrões que cria para si próprio, que por sua vez determinam o processo de selecção que a sua playlist vai sofrer. Esta figura mitológica que é o “gosto pessoal” está intimamente relacionada com a experiência de vida do indivíduo, sendo que cada um valoriza artisticamente aquilo que mais apela à sua psique: há quem odeie estruturas musicais básicas e prefira música progressiva, há quem não suporte bandas pouco originais e dê mais valor à experimentação, há quem não goste de temáticas pesadas e prefira letras mais descontraídas, há quem tenha preferência por música agressiva, e há quem não a ouça de todo. Estes são meros exemplos de vários espectros de gosto pessoal onde cada ouvinte se pode situar, e todos eles são igualmente válidos para quem não é um completo otário.

Se pensarem como o senhor da esquerda, esqueçam a música, definitivamente não é a vossa praia.

Por mais que dêem voltas ao cérebro, a verdade é que não existem razões minimamente lógicas para dizer que Slayer é melhor do que Lady GaGa, porque na realidade não é melhor nem pior – simplesmente são pratos diferentes destinados a paladares distintos. Peçam ao vosso amigo deficiente que pense na música tecnicamente bem executada como se fosse comida: maçãs maduras são melhores do que pêras maduras? Talvez uma analogia com cerveja surta mais efeito, mas eu não sou macho o suficiente para conseguir fazer uma dessas. Comam frutinha que faz bem!

Um conselho para os que dão importância ao que as bandas vestem ou à quantidade de fãs que possuem: vendam esse bilhete para Belphegor e comprem uma entrada para o Moda Lisboa, seus posers.

Dito isto, se o leitor estiver a pensar algo como “Que blasfémia!”, lamento informar, mas o leitor é um elitista, os meus pêsames à família. Não há nada que nos diga que a música tem de ter X estrutura, soar de Y maneira ou ter Z graus de complexidade para ser boa música. A arte é expressão pessoal e cada indivíduo tem algo diferente para exprimir, portanto quem acha que existem géneros musicais inferiores, por mais orgulho que tenha no seu elitismo, a única coisa que faz é negar a si próprio a oportunidade de ouvir mais música que o faça sentir bem, simplesmente por não conseguir tolerar outras noções estéticas.

A relatividade da estética

É comum vermos muito ódio direccionado a certos grupos musicais puramente baseado em duas coisas: a sua aparência e o seu estilo de composição. Artistas como os integrantes de Avenged Sevenfold, Black Veil Brides, e de bandas de metalcore em geral, são essencialmente odiados não só pela maneira como se vestem, mas também pela sua preferência por composições mais “orelhudas” e inofensivas.

Começando por questões sonoras, a crítica mais frequentemente atirada a bandas de metal com sonoridade menos agressiva é aquele velho chavão: “isso nem é metal”. Isto no fundo nem chega a ser uma crítica, porque algo ser “metal” dificilmente conta como um atestado de qualidade garantida – existem milhares de bandas de metal que tocam mal e ainda mais artistas fora do metal que são músicos brilhantes com um conhecimento profundo de como se faz música, tanto a nível teórico como a nível prático. Aconselho vivamente que larguem esse conceito de “metal é que é”, abram a mente antes de abrirem a boca e abandonem essas noções completamente arbitrárias para definir o que é ou não é metal. Não interessa se é metal, é música.

O vosso amigo.

No que toca a questões de estilo, muitos artistas mais populares dentro do metal são frequentemente apelidados de “azeiteiros” (ou termos equivalentes) pelo idiota que não entende as nuances inerentes à relatividade da estética. Para mim, corpse paint é azeiteiro, mas não tenho maneira de vos provar que a minha apresentação em palco é melhor do que aqueles que usam corpse paint (ou vice-versa) porque não é melhor nem pior, mas antes algo que depende exclusivamente do sentido estético individual. Precisamente por isto é que eu nunca nego uma banda com base na maneira como se apresentam, e o mesmo vale para a popularidade da suposta banda ou subgénero. Um conselho para os que dão importância ao que as bandas vestem ou à quantidade de fãs que possuem: vendam esse bilhete para Belphegor e comprem uma entrada para o Moda Lisboa, seus posers.

Posers?

Então e os posers, aqueles que não ouvem o verdadeiro metal, tal como os Manowar e outras bandas de “verdadeiro metal” nos ensinaram? Bem, o conceito de poser é, muitas vezes, nada mais do que vómito projectado por frustrados no âmbito de se aproveitarem da mentalidade de matilha para criar uma espécie de clube exclusivo onde se podem sentir especiais e superiores, porque supostamente percebem mais de música do que nós, comuns mortais. Convém referir que, à custa dessa mentalidade de matilha, esse slogan de “verdadeiro metal” ganhou muitos fãs, vendeu muito merchandise e encheu os bolsos a muita gente, sendo pouco diferente de qualquer outra manobra publicitária.

(…) para mim o poser é aquele que dá demasiada importância a ser visto de determinada maneira e perde demasiado tempo a julgar os outros e pouco a realmente apreciar a arte que tanto clama apreciar.

Algo que pode ajudar a curar o vosso amigo elitista seria um reaproveitamento do termo poser, conferindo-lhe um significado mais literal, por exemplo: para mim o poser é aquele que dá demasiada importância a ser visto de determinada maneira e perde demasiado tempo a julgar os outros e pouco a realmente apreciar a arte que tanto clama apreciar. O poser vive para a pose e para as aparências, deseja sentir-se especial, sendo que muitos deles manifestam essa necessidade comportando-se como se fossem os maiores fãs e os mais entendidos em música, quando muitos nem sabem a diferença entre boa música e gosto pessoal, algo considerado básico em questões de teoria musical.

Ainda assim, estes gremlins pretensiosos querem ser vistos como os mais cinicamente inteligentes, não sabendo que o cinismo, ironicamente, é o maior recurso daqueles que desejam aparentar sapiência sem os pontos de Q.I. necessários para realmente a terem. Chegamos, portanto, à seguinte ironia, ainda mais grandiosa do que a anterior: aqueles que se auto-intitulam de verdadeiros metaleiros são muitas vezes os maiores posers.

Em suma, a melhor maneira de não ser um elitista ignorante é aprender a distinguir entre gosto pessoal e qualidade musical, e aprender a aceitar gostos diferentes, quer a nível sonoro ou a nível estético. Se todos compreendessem pelo menos essas duas noções básicas, teríamos menos posers a entupir os concertos e as redes sociais com atestados de estupidez que dificilmente se assemelham a raciocínios coerentes e por associação descem a inteligência colectiva de todos os que entram em contacto com os seus urros incessantes enquanto batem no peito para tentar impressionar as fêmeas da espécie. E só para terminar, Manowar é horrível – gosto pessoal, apanharam? Já estão a aprender!


O espaço de crónica na MOSHER TV é da inteira responsabilidade dos seus autores, a quem agradecemos a colaboração.

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Biólogo, músico e escritor freelance com a mania que sabe tudo.