O ser humano é incrivelmente frágil: pelas características da sua própria constituição física não está naturalmente adaptado ao planeta que habita, precisando de fabricar casas, roupas, medicamentos e todo o tipo de artefactos e soluções para lograr sobreviver num meio natural que lhe é, por desígnio, agreste. A fragilidade física é tal, que a simples picada de certos insectos, incomensuravelmente mais pequenos em estatura do que o próprio, lhe podem tirar a vida num ápice.

A perda e a morte são, portanto, realidades inevitáveis, as quais todo o homo sapiens se vê forçado a encarar diariamente, sendo que, em essência, tudo o que o mesmo faz tem como motivação primordial a distracção de considerar o seu próprio inevitável desaparecimento.

O homem, dotado tanto de uma acentuada consciência da efemeridade dos momentos, como da sua necessidade de convivência social e criação de laços relacionais, é igualmente frágil no plano emocional, algo que o faz constantemente temer e sofrer intensamente pela perda de contacto com aqueles que lhe são queridos, por via da própria morte ou de cortes de relações interpessoais, frequentemente amorosas.

No campo da arte, o acto de lidar com a perda sempre foi um tema central explorado pelos artistas, especificando aqui os músicos, e as suas obras têm o fantástico poder inato de marcar e tocar profundamente alguma porção dos ouvintes que as experienciam e que, estando eles próprios envolvidos em situações nas quais choram a perda de alguém ou algo, se relacionam intensamente com as melodias e letras que formam as canções.

Neste artigo, que é, por admissão própria, mais emocional do que aqueles com uma vertente analítica mais vincada, os que estou mais habituado a fazer, enumerarei 10 temas que, por experiência pessoal, estão e estarão sempre intimamente ligados à minha própria vida, e a momentos onde me vi forçado a lidar com a negra e maldita ceifa da perda.

10. Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows – “Hades ‘Pluton’” («Dead Lovers Sarabande (Face One)» – Apocalyptic Vision, 1999)

Nesta música, que assume um papel central na narrativa do disco «Dead Lovers Sarabande (Face One)», do projecto alemão de darkwave Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows, a misteriosa Anna-Varney Cantodea descreve os últimos momentos antes da morte do seu maior amor, e o pacto que a mesma tenta desesperadamente fazer com os espíritos do além, na tentativa de se juntar ao seu falecido parceiro no abraço da finitude.

Não só através do sofrimento por via de amores perdidos me sinto tocado por esta música, mas também, e sobretudo, pela dor do desaparecimento de uma figura central e incontornável na minha vida, tão importante para a minha formação e criação enquanto ainda muito jovem, ao ponto de, várias vezes, dar por mim a pensar se alguma vez a poderei reencontrar, na eventualidade da existência de algo mais, que suceda esta nossa existência corpórea.

9. Marilyn Manson – “The Nobodies” («Holy Wood (In The Shadow Of The Valley Of Death)» – Nothing/Interscope, 2000)

O conteúdo lírico deste tema serve como um espelho bem cristalino para o estado de espírito do controverso Marilyn Manson, no rescaldo do massacre de Columbine, no qual o músico norte-americano passou largos meses sob fogo cerrado dos media, pela percepção de que a sua música teria sido um dos principais causadores dos distúrbios nas mentes dos dois alunos, que os levaram a por em marcha toda a carnificina que se verificou, porventura numa procura de doentio protagonismo ou estrelato.

Num momento tão frágil da sua própria vida, parece-me que Manson considera e questiona o seu próprio valor, temendo perder a sua sanidade mental, se acabar por se convencer que o objectivo de criar arte que seria em última instância, uma ferramenta positiva para quem nela encontrasse forças para se sentir melhor com a sua própria vida, acabasse por ser, na verdade, e fundamentalmente contra a sua vontade, um assistente para actos nefastos e atentados aterrorizantes.

Há, até quase paradoxalmente, uma outra interpretação que encontro nas letras de “The Nobodies”, que passa pelo desespero que uma pessoa sente ao ponderar a possibilidade de que a mesma seja, no final de contas, completamente insignificante em qualquer contexto que a rodeie, fazendo, por sua vez, com que os esforços que exerce para, de alguma forma, lograr influenciar algo afecto ao mundo exterior, apenas acabem por cair no vazio da sua própria futilidade.

8. Dream Theater – “Disappear” («Six Degrees Of Inner Turbulence» – Elektra, 2002)

Lançado no ano de 2002, o álbum «Six Degrees Of Inner Turbulence», dos Dream Theater, tem como tema geral a luta contra graves problemas comumente enfrentados pelos seres humanos durante as suas existências, como o alcoolismo, a doença mental ou, no caso desta música, a morte de alguém próximo.

“Disappear” retrata o momento exacto em que é confirmada a perda, um momento no qual a personagem enfrenta o doloroso choque de assistir aos últimos fôlegos de uma pessoa extremamente importante para si: uma mulher, namorada, mentora, ou amiga – não é especificado mais do que o género da pessoa defunta – onde a sensação de desespero e de apatia perante uma realidade tão devastadora quanto irreversível invade e consome todo o corpo daquele que fica.

O exacto segundo em que se observa o fim, ou se recebe a notícia de que um grande amigo perdeu a sua batalha contra uma doença e já não pertence a este mundo enche o coração de um doloroso misto de mágoa e apatia, bem como fustigantes pensamentos sobre a justiça – ou falta dela – de tal situação, e traduz-se numa hora de crueldade superior, cuja cortesia está somente ao alcance de um qualquer doentio anjo da morte, que acaba de nos brindar com uma gélida realidade…

7. Machine Head – “Descend The Shades Of Night” («Through The Ashes Of Empires» – Roadrunner, 2003)

…e que antecede o momento de despedida física, muitas vezes em jeito de cerimónia fúnebre, daquilo que agora já só é uma casca vazia, mas que outrora albergou o grande amigo que acabou de partir. A família que os amigos juntam-se em redor de um caixão e prestam os seus últimos tributos, recordando histórias e actos que viverão para sempre nas memórias de cada um, mas que envolvem um indivíduo já bem longe do mundo material.

Para quem fica, contudo, o único conforto que é encontrado surge na forma de um abraço sentido, aquele abraço com um outro presente que também nos é especial, e que tenha a delicada gentileza de nos segurar a mão e a apertar fortemente enquanto todos se preparam para o derradeiro momento de despedida.

A melancolia apática da canção dos Dream Theater encontra um contraponto extremo na dos norte-americanos Machine Head, no qual a personagem experiencia um crescendo de raiva e desaba a gritar aos céus, revoltado pelo desaparecimento da pessoa que tanto significou para ela. Musicalmente falando, isto surge representado pela secção intermédia da música, repleta de leads de guitarra viscerais, que complementam a parede de riffs distorcidos e padrões de bateria que, em partes, mais se assemelham a gongos de igreja, que soam para a assinalar o fim de mais uma vida, antes da suave guitarra acústica retomar os holofotes e mergulhar o tema na escuridão, tal como o caixão que é baixado à terra ou incinerado por chamas, tão quentes como as do próprio inferno.

6. Linkin Park – “One More Light” («One More Light» – Warner Bros./Machine Shop, 2017)

Em Julho deste mesmo ano, o mundo foi abalado pela notícia do suicídio de Chester Bennington, dos populares e influentes Linkin Park, poucos meses depois do igualmente impactante desaparecimento do cantor Chris Cornell, que se popularizou como membro das bandas Soundgarden, Audioslave ou Temple Of The Dog.

Esta música, faixa-título do último álbum gravado por Chester, que por si só já seria suficiente emocionante, ganha toda uma nova dimensão aquando da notícia, uma característica que traz à memória outros casos, como o de «Blackstar», álbum final de David Bowie, e que foi composto e gravado enquanto o mesmo já sabia que o seu tempo neste planeta se estava a aproximar do fim. Dada a motivação para a morte de Bennington ter sido uma profunda depressão, abre-se campo para especular se este caso não seria o mesmo, algo que oferece ainda mais uma camada de interpretação do conteúdo lírico deste tema.

Naquilo que é uma característica muito própria do espectro emocional humano, verifica-se com bastante frequência o caso de simples pessoas, fãs de um qualquer artista, que se sentem profundamente a sua perda, como se de um familiar ou amigo se tratasse, isto apesar de, em vários casos, as mesmas nunca o terem sequer visto ou conhecido pessoalmente. Na verdade, o artista assume, muitas vezes, um grande grau de influência em alguma parte importante da vida do fã, e as suas peças artísticas têm uma importância enorme para este mero e simples indivíduo, que as aprecia e acarinha, ao ponto do desaparecimento do seu criador causar uma dor bem real.

5. Dead Can Dance – “The Carnival is Over” («Into The Labyrinth» – 4AD, 1993)

Já fiz uma extensa descrição sobre as razões pelas quais o «Into The Labyrinth» é um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos, talvez mesmo o favorito, num outro artigo, neste mesmo site. Nessa reflexão também ofereci algum destaque a este tema, que é um dos que mais me emociona. Recuperando as minhas próprias palavras, é um tema “lindíssimo e extremamente melodramático, o qual não canso de ouvir apesar de me trazer à memória ecos de momentos complicados.”

Levantando o véu em relação àquilo que referi no texto, esses momentos complicados têm a ver com uma relação amorosa, na ocasião o primeiro grande amor que tive, e que terminou de uma forma algo triste, pois aquilo que outrora havia sido uma parceria belíssima e cheia de sentimento, se foi diluindo, através de problemas e discussões, causadas por um evidente desgaste interpessoal, para o qual também contribuíram diferenças de carácter que se vieram a tornar incomportáveis.

Para Brendan Perry, membro dos Dead Can Dance e compositor deste tema, a história de “The Carnival is Over”, aparenta referir-se a belas memórias da sua infância, passada pelas ruas de Londres, mas para mim as memórias que o tema desperta são bem diferentes, na ocasião os momentos em que me apercebi que estava  a perder a relação que sempre quis ter – ela estava a escorregar pelos meus dedos e a caminhar para um beco sem saída, sendo que só a mim cabia a dura tarefa de a terminar. E era absolutamente necessário que o fizesse.

4. Burzum – “Dunkelheit” («Filosofem» – Misanthropy/Cymophane, 1996)

Se o momento em que me apercebi que teria de terminar a relação com a pessoa que mais tinha amado até à data foi doloroso, o mesmo nem se aproximou, em escala de dor, àquele em que efectivamente disse à pessoa em questão, cara-a-cara, que, a partir daquele momento, o “nós” já não existia. Este episódio tornou-se particularmente cruel pela reacção de surpresa, profunda tristeza e desespero que veio do outro lado.

Um acto destes tem o distinto condão de mergulhar, momentaneamente, toda uma vida numa escuridão profunda, particularmente porque, por mais que quem acabe tenha a convicção de que tomou a escolha certa, há sempre algum grau de dúvida que persiste, e a existência dessa dúvida dá aso a um sem-número de noites passadas em branco, martelando a cabeça ao considerar se a pessoa com quem se terminou não teria merecido mais tempo e mais esforço no sentido de procurar uma hipotética salvação para a relação – algo que, durando muito tempo, leva ao nascimento de uma sensação de profundo arrependimento, se não mesmo auto-recriminação.

A atmosfera crua e suja deste tema, composto pelo infame músico, produtor, assassino condenado e vlogger de conteúdos questionáveis Varg Vikernes, e lançado no contexto da sua one-man band Burzum, oferece um cenário perfeito e chão bem fértil para o desenvolvimento de uma depressão, da qual confesso que percebo, uma vez que tive o distinto “prazer” de a experienciar durante meses.

3. Triptykon – “A Thousand Lies” («Eparistera Daimones», Prowling Death/Century Media, 2010)

Neste ponto entram em campo as questões da monogamia e da fidelidade, sobejamente importantes para a generalidade dos habitantes do mundo ocidental, no que às suas relações diz respeito. A sensação de traição é capaz de despertar as reacções mais viscerais por parte de quem a percepciona, tanto num momento de descoberta como num de confirmação de uma suspeita já existente, ou mesmo da suspeita de algo que até pode acabar por nunca ser confirmado.

Em muitos aspectos, a ignorância é uma bênção, mas quando se presencia pessoalmente a visão da pessoa com a qual se terminou uma relação há pouco tempo, e cuja perda ainda se chora, já na companhia de uma outra, há certas questões que começam a povoar a mente, e que levam o ser humano a analisar comportamentos passados, tentando ligar pontos para compreender se este novo integrante da história apenas surgiu no pós-separação ou se já por lá andava antes. Por vezes, as suspeitas têm razão de ser e noutros casos a sua existência trata-se de uma simples reacção de choque ao avistamento da situação, que também corresponde a uma tentativa instintiva de gap filling feita pelo cérebro.

Facilmente e frequentemente, um intenso sentimento de raiva invade a pessoa, e a simples hipótese da mesma ter sido, em alguma altura da relação, traída ou enganada, é mais que suficiente para desencadear um ressentimento profundo pela memória daquele ou aquela que outrora nos tinha sido tão querido ou querida. Músicas com um grau tão elevado de intensidade sónica e agressividade instrumental, lírica e emocional como “A Thousand Lies” são frequentemente utilizadas como meios de lidar com – ou amplificar – toda uma míriade de sentimentos negativos.

2. Ignite – “Three Years” («Our Darkest Days» – Abacus Recordings/Century Media, 2006)

Algo que é geral no período de cura e reflexão após uma separação complicada é o pensamento constante no passado, que faz com que o coração sofra intensamente ao relembrar tempos e histórias de profunda importância, mas que agora apenas despertam dor e saudade. Esta dor é, invariavelmente, amplificada pelo reconhecer da impossibilidade de criação de novos momentos com aquela pessoa, uma vez que, naturalmente, ela jamais voltará.

O ritmo frenético e as linhas vocais extremamente melódicas são traços basilares do som dos punk rockers americanos, cujos temas que tratam, de modo bastante descritivo e directo, as experiências negativas dos seus próprios integrantes, são bastante eficazes ao criar uma sensação de tremenda empatia no ouvinte, pela sinceridade e crueza com que os mesmos abrem os seus respectivos corações ao mundo. Por conseguinte, esta “Three Years”, cujo conteúdo temático se refere precisamente ao término de uma relação, corresponde a uma passagem em retrospectiva por esse mesmo relacionamento defunto, onde se recordam os altos e baixos, as promessas desfeitas e todo o amor que, como último destino, conheceu o negrume do seu fim.

1. Nine Inch Nails – “Love Is Not Enough” («With Teeth» – Nothing/Interscope, 2005)

E o que acontece quando uma relação termina subitamente, mas de forma aparentemente correcta, respeitosa e racional, com um bom comportamento de parte a parte? Seria lógico assumir que este quadro ofereceria uma maneira mais fácil de lidar com o término, particularmente quanto somos aquele que não tomou a custosa decisão, mas sido aquele que foi informado que a relação não poderia continuar – um contraponto para a situação que descrevi alguns pontos atrás, quando falei do tema “The Carnival Is Over”, portanto.

Esta assunção lógica não é necessariamente verdade – o lado racional e frio do ser humano só consegue chegar até um certo ponto e, por mais que até se consiga sair da fase de negação de modo bastante expedito, é virtualmente impossível não pensar na injustiça dos factos. Particularizo: trata-se da situação entre duas pessoas que se amam profundamente mas que terminam a sua relação, única e exclusivamente porque os seus projectos de vida planeados para o futuro são incompatíveis, e um dos lados não se encontra disposto a tentar adaptar o seu ao do outro, um hipotético caso onde seria dada primazia à busca de um meio-termo que pudesse agradar a ambos.

Trent Reznor sempre foi mestre na arte de transmitir sentimentos complicados através de letras que espelham tanta fúria como resignação, e a sua maneira característica de tratar estes temas de índole psicológica e comportamental até lhe valeram a distinta honra de ver o lendário Johnny Cash, já nos derradeiros anos da sua vida, a fazer uma versão de um dos temas dos Nine Inch Nails, no caso “Hurt”.

Quanto a esta canção do álbum «With Teeth», as suas letras deixam completamente a nu a dura realidade que é verificar que, de facto, é preciso mais do que a convergência de sentimentos amorosos para que uma relação não acabe por ruir sob o peso das particularidades de ambos os seus intervenientes. No final de contas, após batalhas, lágrimas, dor, sofrimento, memórias desfeitas, vidas destruídas e corações estilhaçados, e quando os caminhos de duas pessoas são forçados a seguir por rumos distintos, só permanece a máxima:

“O amor não é suficiente”.

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Artista visual e plástico; Músico - fundador e membro único do projecto A Constant Storm e guitarrista dos Moonshade